Sobre a vida

Ângela Goldstein, blogueira e mendiga

January 15, 2015

Oooi, meu nome é Ângela e eu sou uma pessoa que tem uma relação esquisita, de amor e ódio, com roupas.

*Esse é o momento em que todo mundo responde “Ooooi, Ângela” mentalmente e me aceita do jeitinho que eu sou, sem me julgar, como aconteceria em um grupo de apoio.

Uma vez feita a confissão inicial, posso prosseguir com uma explicação um pouco mais aprofundada do tema. Apesar de ter tido mochila da Kipling e aquele moletom do urso da Ralph Lauren, como toda adolescente dos anos 90 que se preze, eu nunca fui da turma das patricinhas, aquelas meninas que estão sempre usando as roupas da moda e todo dia levam horas se arrumando para ir à escola. Eu usava as roupas que meus pais podiam comprar e também fazia muitas delas – pois é, eu costuro desde os 16 anos – em resumo, eu gostava de usar as roupas que eu achava legais, sem que elas necessariamente estivessem na moda.

Ângela Goldstein

Então eu cresci, passei no vestibular e fui estudar Letras na USP. Quem aqui já esteve em faculdade de humanas de universidade pública consegue imaginar o que isso quer dizer, o grau de despreocupação dos colegas com o ‘”look do dia” é tanto que um deles certa vez me disse que eu era integrante do “Núcleo patty da FFLCH”, eu quase caí pra trás na hora que ouvi aquilo.

Forte Orange

A foto foi tirada em Recife – PE, mas esse era um modelito que usava sempre para ir às aulas da faculdade. Nada patricinha, certo?

No último ano da graduação eu fui contratada por uma escola de inglês para dar aulas para os executivos da Berrini, uma daquelas avenidas de São Paulo cheia de gente carregando bolsas Louis Vuitton e usando ternos bem cortados, e então precisei me preocupar mais com a maneira de me vestir. Eu sou uma pessoa extremamente preguiçosa – minha mãe me chama, carinhosamente, de molusca – e simplesmente não tenho disposição de me produzir diariamente. Preciso confessar que eu tenho uma certa inveja de gente que passa maquiagem e usa salto todo dia, mas eu não troco esses minutos a mais na cama pra me me arrumar pro trabalho por nada no mundo. Não que eu alguma vez tenha ido descabelada pro trabalho, mas eu tenho que admitir que às vezes eu sou aquela pessoa que você olha na rua e pensa: “Gente! Essa moça não tem mãe em casa pra falar que essa roupa não está boa?”  Vou te contar um segredo: eu tenho mãe em casa e ela sempre fala, eu é que finjo que não ouço.

Então ontem me peguei um pouco saudosa do Brasil e resolvi olhar algumas fotos do ano passado, foi então que me deparei com isso aqui…

Burberry

Sim, minha gente, o ser humano da foto acima sou eu mesma… Fazendo compras na Burberry, no Iguatemi JK, onde tem uma vendedora que me conhece pelo nome. Fez sentido pra vocês? Pois é, pra mim também não. Mas eu disse que eu tinha uma relação esquisita com as minhas roupas…

“E o que isso tem a ver com um blog de viagens?”, você me pergunta. Eu digo que tudo, meu querido leitor, uma vez que viajar só fez com que os meus looks do dia voltassem a ser o esculacho que eram na minha época de faculdade… A começar pelo método Ângela Goldstein de arrumar a mala: escolha roupas velhas, aquelas que você doaria na próxima oportunidade, leve para o seu destino e deixe-as lá na hora de voltar pra casa. Quer coisa mais eficiente? Elimina aquele monte de roupa suja e a necessidade de lavá-las na hora da chegada, além de liberar espaço precioso pra você colocar os seus souvenirs. Sem contar que você sempre pode usar a desculpa de que se desfez de peças velhas para poder comprar roupas bacanas no lugar que você estiver visitando.

Mas e como isso fez de mim uma mendiga?

Eu tenho uma camiseta, branca estampada com maçãzinhas pretas e vermelhas, que eu simplesmente adoro e que já rodou meio mundo comigo. Hoje em dia ela conta com dois pequenos furos na frente, um maiorzinho e um pequenino nas costas e, para o mais completo horror da minha mãe, eu sigo usando normalmente. Abaixo você pode ver minha fiel companheira em três momentos diferentes: na Ilha de Páscoa, na Chapada dos Veadeiros e no Laos.

Ahu tongarikichapada dos veadeirosLuang Prabang

Acontece que em Phi Phi é normal usar roupa com furinho, um furo só se torna inaceitável por aqui a partir do momento em que você consegue passar mais de dois dedos por ele, qualquer coisa menor que isso está absolutamente dentro dos padrões nada rígidos que temos na ilha. Aqui, ninguém tem máquina de lavar roupa ou tanque em casa, de modo que todo mundo tem que terceirizar esse serviço e eu sei lá em que condições as minhas roupas são lavadas, tenho uma séria suspeita de que elas não sejam separadas por cor e certeza de que absolutamente nada é lavado na mão. Pensando nisso, por que eu traria as minhas melhores roupas pra cá? Em segundo lugar vem a umidade, quem mora na praia sabe a desgraça que isso é, mais cedo ou mais tarde tudo acaba estragando por causa do mofo acumulado. Por último vem o tipo de trabalho que eu faço na escola de mergulho; as caixas nas quais os equipamentos são transportados para o barco têm alças de metal enferrujadas e a mancha que elas deixam quando encostam na roupa não sai nunca mais. Some-se a isso o único tipo de calçado aceitável na ilha; Havaianas, as legítimas.

Então foi assim, a partir de uma combinação de roupa velha com furinho e manchinhas de ferrugem que eu fui me tornando ainda mais relaxada do que eu era antes. Mas às vezes a gente ainda consegue tornar a camiseta velha aceitável colocando-a num cenário bacana e segurando no carão.

Em Angkor Wat, no Cambodia.

Em Angkor Wat, no Cambodia.

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2 Comments

  • Reply Debora January 16, 2015 at 9:26 am

    Olá Ângela tudo bem???

    Hahahahahaha super me identifico com vc!!! ODEIO ficar horas tentando me arrumar!!! Não sei usar maquiagem e por isso não tento, o problema é que moro em Curitiba e aqui as pessoas usam salto alto pra ir ao shopping!!! =/

    Beijinhos;
    Débora.
    http://derbymotta.blogspot.com.br/

    • Reply angelagolds January 16, 2015 at 11:25 pm

      Eu até acho legal me arrumar de vez em quando, mas confesso que a preguiça é muito maior… =)
      Bjs!

    Digaí!