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Sobre a vida

Braseel, Equipamento, Sobre a vida

Cânion da Suçuapara, ou por que uma Nikon é a melhor câmera à prova d’água

September 18, 2015

Sábado de manhã daríamos início à viagem pelo Jalapão, indo de Palmas em direção ao interior do estado em um veículo que é o cruzamento de um ônibus com um caminhão. No café-da-manhã já começamos a nos enturmar mais um pouco, mas eu seguia meio próxima do Márcio, pois ele era a única pessoa que eu já conhecia um pouco melhor e isso me deixava mais à vontade (abro este parênteses para dizer que nem todo mundo que viaja é super extrovertido e já sai fazendo amizade com o primeiro que aparece pela frente, eu sou bastante introvertida e adoro uma zona de conforto, além de gostar de observar bastante o ambiente antes de sair me enturmando. E não tem nada de errado com isso. Viajantes introvertidos do mundo, uni-vos! Mas pode ser cada um no seu canto mesmo, não tem necessidade de grudar).

Nosso "caminhônibus"

Nosso “caminhônibus”

Quando nosso guia chegou, juntamos as malas e fomos pra dentro do caminhônibus. A primeira parada do dia foi no cânion da Suçuapara, depois de algumas horas de sacolejo, para conhecermos o lugar e tirarmos algumas fotos. Ao pararmos na beira da estrada e começarmos o caminho a conversa já rolava com mais naturalidade entre o pessoal do grupo e algumas piadinhas, que nos acompanharam pela semana inteira, já estavam sendo feitas. Todo mundo se divertindo, todo mundo rindo, todo mundo fotografando, botei uma patinha pra fora da minha concha e já estava fazendo amizades aqui e ali.

A descida da estrada até o cânion não é a mais fácil, há que se escorar e se segurar nas plantas e em alguns cipós que anos e anos de torce-retorce transformaram em corrimãos, sensacional! O cânion é escuro e no fundo há uma pequena cachoeira que termina em uma rasa piscina natural, a coisa mais linda.

canion suçuaparaAo longo do cânion há várias pedrinhas brancas empilhadas nas reentrâncias das paredes. O Mauro, nosso guia, disse que não sabia de onde vinha a tradição mas que as pedras começaram a ser colocadas ali há não muito tempo para fazer pedidos. Parece que a cachoeira atendia, de modo que coloquei a minha ali também, vai que dava certo…

cânion suçuaparaApesar do cânion ser bem escuro, o calor do Tocantins em março não nos intimidou nem um pouco e todo mundo entrou na cachoeira para se refrescar um pouco. Eu também. E aí todo mundo começou a tirar fotos, de dentro da cachoeira, de fora da cachoeira, do lado da cachoeira, de quem estava na cachoeira, de quem estava fora da cachoeira, todo mundo com água pelas coxas e se divertindo. Maior legal, enfim. Tanto que passei minha câmera pro Márcio, que estava do lado de fora, e pedi pra ele tirar uma foto minha, que estava do lado de dentro. Ficou meio escura, ele falou, joga aqui, eu falei e ele não quis. Mas eu ainda tinha aquela memória de 1998, aquela das duas amigas na beira da piscina, quando uma jogou a câmera pra outra e não teve problema nenhum porque a câmera era à prova d’água e podia molhar. Eu precisava repetir agora que tinha a minha.

– Dá nada não, Márcio, a câmera é à prova d’água, pode molhar.

– Tem certeza?

– Tenho, manda aí que eu faço os ajustes e a próxima foto sai boa.

Ele jogou.

cânion suçuaparaTCHI – BUM!

Tá vendo eu ali levantando as duas mãos pra pegar a câmera? Então, ela bateu numa das mãos, eu não consegui segurar e lá se foi a danada pra baixo d’água…

PER-DI!

Eu logo enfiei a mão ali por perto de onde ela tinha caído e comecei a tatear. Em seguida veio o Márcio ajudar e aí começou a vir o resto do pessoal. Todo mundo agachado, com as mãos na água e os olhares para baixo, tateando, tateando. Havia uma fresta ali de onde caía a água e eu me enfiei pelas pedras para procurar por aqui, vai que a correnteza tinha empurrado a danada pra dentro? Nisso eu sinto uma mão passando pelas minhas costas e ouço um grito assustadíssimo, era o Jorge que achou que a pedra tinha se mexido.

A busca continuou e agora já contávamos com a assistência do Mauro, que arrumou um óculos de natação com alguém para poder procurar melhor. Acontece que todo mundo já tinha andado por ali e a areia do fundo da cachoeira tinha subido e deixado a água ainda mais turva.

– É, Ângela, parece que Iara levou sua câmera… Mas, olha, eu venho aqui toda semana, então eu vou dar uma procurada da próxima vez, já que a água não escoa para lugar nenhum.

korubo

Ainda dei uma última olhada antes de ter que voltar pro caminhônibus e seguirmos pro acampamento. Paciência, pensei, ter uma câmera à prova d’água simplesmente não está no meu destino. E aí incorporei o mantra do Jalapão, o “desapega”, que o Mauro falava a toda hora – servia pra quando o sinal do celular não pegava, pra quando uma unha lascava e também pra quando minha máquina se foi.

Entrando no ônibus a brincadeira era de que Iara, a sereia das águas doces, tinha roubado minha câmera. Até que a Yara, uma das companheiras de excursão, começou a me olhar meio torto, pois ela não sabia do que estávamos falando e não via graça nenhuma na piada. Expliquei minha situação e ela se compadeceu, assim como a Sil, que foi gentilíssima e me emprestou uma câmera reserva pra que eu também pudesse tirar as minhas fotos.

Fiquei chateada, mas não inconsolável. Fiz a Poliana e pensei que pelo menos tinha sido melhor perder no primeiro dia de viagem, quando ainda só tinha uma meia dúzia de fotos do que no último dia, com todas as que tivesse tirado durante uma semana. E, gente, eu preciso dizer que fui a pessoa mais fotografada do grupo inteiro! Todo mundo se compadeceu da pobre menina azarada e me mimou.

jalapão

Dá pra ter uma idéia do que eu quero dizer com “a pessoa mais fotografada da viagem”, né?

 Uma semana depois voltei pra casa, contei a tragédia da perda da câmera pra minha mãe e amigos e uma amiga, que estava de viagem marcada para os Estados Unidos em breve, me ofereceu para trazer uma nova. Aceitei com um certo receio, já achando que próxima não duraria tanto tempo assim nas minhas mãos, e minha mãe até disse que me daria a dita cuja de presente de aniversário. Entrávamos na segunda semana de março de 2013 e fui recebendo as fotos que os novos amigos haviam tirado, deu até pra fazer um álbum de Facebook. Pelos próximos dias acalentei uma esperançazinha de reaver minha Nikon, já que o Mauro tinha ficado de procurá-la quando voltasse ao cânion da Suçuapara, mas não recebi notícia nenhuma.

Passa-se um mês, a viagem da amiga que poderia me fazer o frete da câmera nova se aproxima, eu já estava conformada com o fato de que o Mauro não tinha tido sucesso na busca. Numa tarde tranquila em casa o telefone toca:

– Alô?

– Alô. Eu poderia falar com a Ângela por favor?

– Sou eu mesma, quem gostaria?

– É o Rafael Palmas. *aquela busca rápida no arquivo morto “Rafael de Palmas, Rafael de Palmas… não, não conheci nenhum Rafael em Palmas, de modo que não posso ter dado meu telefone, muito menos o fixo, pra um Rafael de Palmas.

– Pois não?

– Então, Ângela, no final-de-semana passado eu estava nadando com um amigo meu no cânion da Suçuapara…

*nova busca rápida no arquivo morto “cânion da Suçuapara foi onde eu perdi a câmera! Meu D’us! Ele achou a câmera!

– Ãh… péra, não me diga que você encontrou a minha máquina fotográfia?

– Foi sim! Eu enrosquei a mão na cordinha dela, puxei pra ver o que era e achei sua câmera!

– Meu D’us, eu estou até tremendo! Mas como foi que você me achou?

– Eu liguei a câmera pra ver se ainda estava funcionando e estava tudo funcionando direitinho. Aí eu vi a foto que você tirou do bombom do hotel de Palmas, li seu nome, vi o nome do hotel, liguei lá e o pessoal da recepção me passou o seu telefone. Eu queria que você me desse o seu endereço pra eu poder te mandar pelo correio.

E ele me mandou! Uma semana depois disso minha Nikon e eu estávamos juntas novamente, prontas para próximas viagens!

NIkon AW100Recuperar a câmera e as fotos me deixaram felicíssima, mas mais do que elas, muito mais do que elas, fiquei feliz, tocada e emocionada pelo gesto do Rafael. Ele teve a boa vontade de procurar o dono da máquina fotográfica, a disposição de ligar no hotel, de me telefonar e me enviar minha Nikon!

Agora, gente, parem pra pensar que a bichinha ficou embaixo d’água por UM MÊS inteiro e quando foi encontrada ainda estava funcionando e com bateria! Eu sempre gostei das câmeras da Nikon, tenho uma D40 que já me acompanhou por muitos lugares, mas nunca imaginei que as subaquáticas deles fossem tão resistentes!

naondeO responsável pelo meu reencontro com minha queridinha! Achei uma gentileza o hotel colocar um chocolatinho e um bilhetinho em cima da cama, fotografei. O Rafael achou a câmera e a foto, teve a gentileza de ligar pro hotel, que teve a gentileza de fornecer meu número.

Deixo aqui, então meu muito obrigada ao Rafael e ao Hotel Pousada dos Girassóis. Gentileza gera gentileza, mesmo!

Equipamento, Sobre a vida

Minha longa história de amor com câmeras à prova d’água

September 17, 2015

Eu tenho uma longa história de amor com câmeras à prova d’água, elas sempre estiveram na lista de desejos de consumo. Quando eu tinha unas 10 ou 11 anos câmeras descartáveis da Kodak começaram a ser vendidas no Brasil e um dos modelos era à prova d’água, com um filme de 27 poses. Quis muito, mas nunca tive dinheiro pra comprar a dita cuja e revelar as fotos depois, que era bem mais caro do que um rolo, e fiquei amargando a vontade.

Até que meu avô me deu um generoso cheque de presente de aniversário e eu decidi que usaria o dinheiro para comprar minha primeira câmera boa, com zoom. Em 1998 uma máquina com zoom era o suprassumo do ser legal nas excursões da escola, se ela fosse sua e não emprestada da sua mãe então… nossa, como você era uma pessoa descolada! Então eu conheci esta câmera:

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E pirei! Foi amor à primeira vista. Foi na beira de uma piscina, onde havia duas moças conversando, uma do lado de dentro e a outra do lado de fora, em um dado momento a que estava dentro disse que ia tirar uma foto da amiga e pediu para que ela passasse sua câmera. A que estava fora simplesmente jogou a máquina fotográfica na água, simples assim, arremessou e tchibum! Aí a amiga que estava dentro da piscina simplesmente pegou a câmera e tirou uma foto da outra moça. Encantei-me! Eu usaria o dinheiro do aniversário pra comprar essa Canon aí de cima. Não tinha zoom, mas podia cair na água.

Até que eu fui na loja e perguntei o preço para um vendedor deveras antipático. Ele olhou praquela menina de 12 anos ali na frente dele e falou com uma arrogância da qual não me esqueço até hoje:

– São 600 reais.

Eu quase caí pra trás, o que eu tinha pra gastar era metade disso. Fui a outra loja e comprei uma Pentax com zoom mesmo. Não era o que o meu coração queria, mas ela foi uma ótima companheira, viajou comigo pra muitos lugares e tirei várias fotos, algumas inclusive ainda estão entulhando algumas gavetas em casa.

Em 2008 fui para Omã e levei uma daquelas Kodaks descartáveis para quando fosse fazer snorkel na baía de Muscat. Sabe que a danada era até bem boa? Para um segundo snorkel comprei mais duas e resisti à tentação de comprar uma Olympus que o vendedor do laboratório de revelação quis me empurrar. Apesar de mais barata do que a Canon de anos atrás e eu ter mais dinheiro, continuava sendo um desejo de consumo que não fazia muito sentido na época.

A qualidade é bem ok pra ser uma câmera descartável.

A qualidade é bem ok pra ser uma câmera descartável.

Adoro ver que houve uma época em que sargentinhos me faziam felicíssima!

Adoro ver que houve uma época em que sargentinhos me faziam felicíssima!

Um pouco depois disso, andando pela FNAC, eu descobri um produto chamado Dartbag. É uma bolsa estanque, resistente a 5 metros de profundidade, na qual você coloca a sua câmera comum, veda como um “ziploc” e depois lacra com um plástico duro. Tipo assim:

Ela tem essa cara meio esquisita, mas até que cumpre bem sua função.

Ela tem essa cara meio esquisita, mas até que cumpre bem sua função.

Foi com ela que tirei uma das fotos que usei por mais tempo como foto de perfil em redes sociais.

Foi com ela que tirei uma das fotos que usei por mais tempo como foto de perfil em redes sociais.

Passou-se mais um tempo, uns dois anos, e aí eu estava devidamente empregada, assalariada e de viagem marcada. Dois meses no Sudeste Asiático com direito a uns dias em Koh Phi Phi, onde eu tinha certeza que me encontraria com os peixinhos no fundo do mar. Eu estava empregada e assalariada, lembram-se? Gente, eu comprei uma câmera à prova d’água! E eu fiquei TÃO feliz! Era uma Canon azulzinha e prateada, meio gorduchinha, resistente a 10 metros de profundidade, digital e que me rendeu fotos bem legais.

 

Viva os sargentinhos!

Viva os sargentinhos!

hawksbill turtle

Teve tartaruga!

Infelizmente, poucos mais de um ano depois da minha lua-de-mel com ela, minha Canon foi roubada. Fiquei arrasada, mas como o namorado de uma amiga estava indo para os EUA logo mais, pedi para que ele trouxesse uma Nikon pra mim. Era o modelo novo da marca, sua primeira à prova d’água e com um design bem mais bonito do que a que foi roubada, a bichinha era tão moderna que tinha até GPS! A tristeza pelo roubo até passou.

Ela foi a alegria da minha viagem para Israel!

TaglitE quebrou o galho num mergulho bem raso que fiz em Arraial do Cabo no ano passado.

Cavalo MarinhoMas estas não foram, nem de longe, o que fizeram desta Nikon a câmera mais fantástica que eu já tive na vida. Para saber o resto da história, você vão ter que ler o próximo post.

Di cumê, Sobre a vida

Confissão: eu como no McDonald’s quando viajo

September 12, 2015

Mcdonalds

Às vezes, esse cara sou eu. Muitas vezes, eu como no McDonald’s quando viajo.

Alguém aí ainda quer ser meu amigo depois de ler esta revelação bombástica? Tenho certeza de que muita gente torceu o nariz ao ler que eu me identifico com os tios da foto acima, deu até pra ouvir a bufadinha de um ou outro leitor que se indignou mais do que o necessário – se é que indignação é um sentimento que cabe diante de um hábito que é meu e não atrapalha mais ninguém. E me dêem licença que agora vou ser ainda um pouco mais abusada e pedir para que aqueles que nunca comeram no McDonald’s num país estrangeiro levantarem a mão. Não precisa nem ser a do mouse, pode ser a outra mesmo. Aliás, aproveite que você tirou a mão do teclado ou da mesa e pegue uma batatinha frita, coloque na boca e saboreie. Batatinha do McDonald’s é uma delícia, não é mesmo?

Eu não tenho a menor vergonha de admitir que já comi em muita rede de fast-food pelo mundo afora: KFC em Praga, Pizza Hut no Cairo (com direito a vista para as pirâmides e tudo), Starbucks em Saigon, Swensen’s em Phnom Penh, Krispy Kreme em Kuala Lumpur, Dunkin Donuts em Santiago…  viva o imperialismo yankee! E não vou nem tentar emplacar uma história de que eu não achei outro lugar para comer porque era de noite e todos os outros lugares estavam fechados, ou estava no aeroporto e era a única opção viável dentro do que eu poderia gastar. Não que isso nunca tenha acontecido, mas não foram os principais motivos que me levaram a abrir a carteira e gastar meu rico dinheirinho nestes estabelecimentos que servem refeições nada gourmet. E eu não me considero uma viajante pior do que ninguém por causa disso, mas às vezes eu não estou muito disposta a experimentar um prato diferente e quero apenas o conforto de poder comer alguma coisa já conhecida. Nem só de espírito aventureiro vive uma viajante, minha gente.

McDonald's

Cada um sabe onde termina a sua zona de conforto e até que ponto está disposto a forçar os limites dela. Tem gente que tem pânico de precisar se comunicar em outra língua, tem gente que tem medo de avião e tem gente com paladar mais afrescalhado, categoria da qual eu faço parte. Não que eu seja uma chata pra comer ou coma pouco, muito pelo contrário – meus amigos do Jalapão que o digam – mas eu tenho lá os meus limites. Um deles é uma tremenda intolerância à pimenta, tanto é que eu não saberia nem te dizer se eu gosto de pimenta ou não, dado que eu nunca consegui provar um prato apimentado sem ter encher minha boca de pão no segundo seguinte à garfada. Passei uma semana sofrendo muito na Índia, procurando restaurantes que servissem comida de outras nacionalidades e jantando no Domino’s, onde até o molho de tomate da pizza era apimentado demais para mim.

Se eu acho que a culinária é uma fortíssima expressão da cultura de um povo e que interessante e importante experimentar a cozinha local durante uma viagem? Sim, claro, acho e já tive gratas surpresas fazendo isso. Mas eu também não vejo problema algum em procurar sabores familiares quando fora de casa e me incomodo muito com um certo esnobismo que de vez em quando vejo em outros viajantes – que, geralmente, são aqueles que se sentiriam ofendidíssimos se chamados de turistas. Aparentemente turistas comem em grandes redes de fast-food, enquanto que viajantes estão demasiado imersos na cultura local para sequer notar a presença de um Starbucks à sua frente.

Pena mesmo é o Brasil não uma potencial mundial com poder suficiente para a gente colonizar o mundo com Casas do Pão de Queijo e salgados da Ofner, especialmente a coxinha…

Braseel, Sobre a vida

Jalapão

September 10, 2015

Quando a família que me hospedou durante meu intercâmbio na Alemanha veio nos visitar em 2003, minha mãe quis levá-los para o Jalapão; ela tinha acabado de ver uma reportagem em alguma revista de turismo e achou que eles se interessariam pelo passeio. Este parque estadual no Tocantins tinha virado atração turística há bem pouco tempo e ainda era um destino bastante desconhecido. Por algum motivo que não me lembro, esse não foi um dos passeios que fizemos com eles – Foz do Iguaçú sim, é claro. (Eu tenho má vontade com Foz do Iguaçú, #prontofalei)

A Serra do Espírito Santo é o meu fundo de tela até hoje.

A Serra do Espírito Santo é o meu fundo de tela até hoje.

Quase dez anos depois, no fim de 2012, umas fotos do Jalapão pipocaram no meu Facebook e eu fiquei com muita vontade de conhecer o lugar. Comecei a procurar mais informações na internet e vi que a maioria das agências incluíam uma visita ao povoado Mumbuca no roteiro, descartei todas elas pois detesto esse tipo de turismo que inclui safári humano. Já imaginou um grupo de pessoas chegando no seu lugar de trabalho, na sua casa e apresentar tudo isso como exótico e pitoresco pra um grupo de curiosos? Não gostaria que fizessem comigo, então também não faço com os outros. Por fim encontrei a Korubo, que depois descobri ser a empresa mais antiga daquelas bandas e que apenas oferecia passeios pelas atrações naturais das redondezas. Não tive dúvidas e acertei com eles a minha ida para a primeira semana de março, meu vôo sairia de Campinas no dia seguinte à defesa da minha tese de mestrado.

A hospedagem seria em um acampamento, nós ficaríamos em barracas na beira do Rio Novo e essa seria a nossa base para explorarmos o Jalapão em um caminhão convertido em ônibus. Eu sou uma caipira da cidade, com bem pouca experiência de acampamento e que gosta muito do conforto proporcionado por uma cama macia e banheiros de alvenaria. Sabe, a humanidade demorou tanto pra chegar onde está, pra ter água encanada, acho um desaforo ao meus antepassados desdenhar desse tipo de conforto. Fiquei com o pé um pouco atrás com a história de barracas, mas as fotos do site da Korubo me convenceram de que eu teria todos esses mimos, e as imagens não chegam nem perto do que é a realidade. A barraca dá de dez a zero em muito quarto de hotel por aí…

ônibus korubo

Agora, a melhor surpresa de todas, aquela pela qual eu não esperava e que foi a mais grata, foi o grupo. Eu sabia que eu dividiria o quarto com alguém (do mesmo sexo e, se possível, de idade próxima, de acordo com as informações que a agência me deu) e que teria mais gente no passeio, mas não criei a menor expectativa a respeito. Eu já tinha perdido muito do meu preconceito com viagens em grupo desde o Taglit, então achei legal saber que teria mais gente e imaginei que boa parte das pessoas seria legal, mas não fiquei pensando nisso.

A turma toda subindo as dunas.

A turma toda subindo as dunas.

Nós éramos um grupo grande, 18 pessoas no total, e fomos nos conhecendo aos poucos. Eu peguei o voo para Palmas em Campinas e conheci o Márcio quando chegamos no Tocantins. Conversamos no caminho entre o aeroporto e a pousada e eu gostei dele logo de cara, tanto que fomos dar uma volta pela cidade logo depois de fazermos o check-in e deixar as malas no quarto. Quando voltamos do passeio eu estava cansada e fui pro quarto, mas deixei a porta destrancada pois a moça que seria minha companheira ainda não havia chegado.

Eu e o Márcio nas dunas.

Eu e o Márcio nas dunas.

Lá pela meia noite eu ouço umas batidinhas bem tímidas e a porta se abrindo, uma cabeça aparece e uma vozinha tímida fala:

– Oi… É… eu sou a Talita… Me disseram que o meu quarto era esse aqui. Desculpa ter chegado assim tão tarde…

E assim eu conheci minha irmãzinha jalapense, com quem eu tive o prazer de dividir a barraca e bater altos papos antes de dormir.

Mais de dois anos depois, olha só a gente aqui!

Mais de dois anos depois, olha só a gente aqui!

No dia seguinte, durante o café da manhã fui conhecendo o resto do grupo aos poucos e soube que a maioria já estava super enturmada, desde a noite anterior, quando ficaram bebendo na beira da piscina e acabaram com a cerveja do hotel! Tiveram até que tirar algumas latinhas do frigobar de quartos que não estavam ocupados! Na hora que subimos no ônibus que nos levou até Ponte Alta, onde fizemos a parada pro almoço, eu me sentei perto do Márcio e fiquei observando a bagunça meio de longe. Início de viagem é sempre assim, né? Todo mundo um pouco tímido, um pouco acanhado, tentando se mostrar bem educado e simpático. Fui acompanhando as conversas, rindo um pouco e emendando em alguns papos, mas foi só na hora em que chegamos no cânion da Suçuapara que eu conheci todo mundo praticamente de uma vez só.

O instante fatídico da perda da câmera, devidamente registrado pelo Jorge.

O instante fatídico da perda da câmera, devidamente registrado pelo Jorge.

Por causa de uma câmera perdida todo mundo se juntou e muita gente acabou se conhecendo melhor. Inclusive a Yara e eu, que primeiro me olhou com um olhar torto, porque eu não parava de falar que era ela quem tinha roubado a minha câmera. Então apareceu o Augusto, também lamentando a perda da máquina fotográfica dele, que ficou esquecida num banco qualquer do aeroporto de Brasília, e nós viramos a dupla dos sem registro próprio. Daí veio a Sil e me emprestou uma point-and-shoot pequenininha que ela tinha levado como reserva e eu pude tirar umas fotos minhas.

jalapão

Assim, todo mundo foi se conhecendo aos poucos e praticamente no dia seguinte aquele pudor do início da viagem já tinha completamente desaparecido, no fim da semana parecíamos mais uma excursão de adolescentes indo comemorar o fim do colegial em Porto Seguro. Todo mundo riu de mim e da fome que eu tinha o tempo todo, o Jorge já tinha me dado um saco de Bananinha de Paraibúna na esperança de que eu ficasse quieta e parasse de pedir comida. A Adriana o tempo todo dizendo que estava em desintoxicação e que não ia beber e nem fumar durante a viagem e fazendo só o contrário. No fundo do refeitório havia uma área com artesanato de capim-dourado para venda e a gente podia deixar alguns produtos reservados; a Adriana escolheu um conjunto de pulseiras e deixou uma etiqueta com o nome dela ao lado. No dia seguinte havia mais um bilhetinho ao lado do primeiro: “pulseiras em desintoxicação”, arte do Jorge, que colocou a culpa na Mariana. Ela era a integrante mais novinha do nosso grupo, com 11 ou 12 anos, e uma das mais bacanas da turma.

As “irmãs-sisters”, Beth e Cris, também garantiram a nossa diversão e a Cris ainda foi super gentil ao me emprestar a calça e a bota dela pra caminhada que fizemos sobre a Serra do Espírito Santo. Elas eram engraçadíssimas!

Com a calça e a bota da Cris.

Com a calça e a bota da Cris.

Não teria importância se eu não tivesse tido nenhuma foto guardada dos dias que passei no Jalapão, só as lembranças da turma seriam suficientes para eu nunca me esquecer do cenário e dos dias legais tive. Mas o melhor de tudo é que essa turma não se tornou apenas uma lembrança de viagem bacana, cuja foto está no álbum que você mostra aos amigos e comenta: “Nossa, o pessoal que foi comigo pro Jalapão era tão divertido…” se lembrando de uma coisa boa que ficou longe. A gente continua se falando sempre! Mais de dois anos já se passaram e encontros acontecem com freqüência, a conversa rola solta e quase diariamente num grupo de WhatsApp, tem grupo no Facebook e um carinho enorme entre todos nós que é algo simplesmente encantador!

Ir pro Jalapão foi, com certeza, uma das melhores decisões que já tomei na minha vida!

Braseel, Sobre a vida

O que aconteceu em quatro meses de Brasil

September 4, 2015

Eu fiquei quatro meses em casa e consegui escrever e publicar apenas um texto aqui no blog, isso porque eu tinha grandes ambições e planos. Tinha certeza que produziria como nunca uma vez que tivesse acesso a uma mesa mais decente (90% do que apareceu aqui durante a época que morei na Tailândia foi escrito em cima da cama, geralmente o único lugar do quarto onde eu tinha apoio), pudesse pôr as mãos em fotos antigas que eu queria usar para escrever posts sobre viagens anteriores, uma rotina de trabalho não exaustiva e lugares bonitos onde buscar inspiração, além de poder fazer um cafezinho quando bem entendesse. Só que nada disso aconteceu.

O que aconteceu foi isso:

Hachi

Isso:

IMG_3340

E mais um pouco disso:

angela e cachorros

Mas, calma, não foi só isso que aconteceu em quatro meses de Brasil. Teve muito mais coisa, tanta coisa que nem dá pra colocar de forma coerente em um único post. Fiquei pensando em como escrever, por onde começar, me perdi um pouco na ordem cronológica e cheguei à conclusão que um texto inteiro se tornaria um romance. Assim, achei mais fácil resumir tudo isso em imagens, no melhor estilo Morri de Sunga Branca.

Quatro meses de Brasil; o que teve?

 

Teve sêder de pêssach com ozamigo da comunidade e cantoria desafinada da maioria de nós.

Teve sêder de pêssach com ozamigo da comunidade e cantoria desafinada da maioria de nós.

Teve dia das mães com a minha mãe e nós de camiseta igual!

Teve dia das mães com a minha mãe e nós de camiseta igual!

Teve festa junina do Pinheiros!

Teve festa junina do Pinheiros!

Teve passeio pelo Beco do Batman e tentativa ruim de selfie sexy com a Déia.

Teve passeio pelo Beco do Batman e tentativa ruim de selfie sexy com a Déia.

liberdade

Teve passeio pela Liberdade com a melhor amiga.

Teve muita risada e bobeira com as amigas da costura.

Teve muita risada e bobeira com as amigas da costura.

Teve a Yara! E o Jorge!

Teve a Yara! E o Jorge!

Teve caminha com os amigos do Jalapão pela Serra do Japi. (E aparentemente eu com a mesma camiseta em todas as fotos)

Teve caminha com os amigos do Jalapão pela Serra do Japi. (E aparentemente eu com a mesma camiseta em todas as fotos)

Teve mais encontro com os amigos do Jalapão, dessa vez com quase a turma toda reunida.

Teve mais encontro com os amigos do Jalapão, dessa vez com quase a turma toda reunida.

Teve mais passeio com a melhor amiga.

Teve mais passeio com a melhor amiga.

Teve cinnamon rolls pra Carol.

Teve cinnamon rolls pra Carol.

Teve a dupla Hachisaka divando e me ajudando a desejar feliz aniversário à distância pro Josh.

Teve a dupla Hachisaka divando e me ajudando a desejar feliz aniversário à distância pro Josh.

Teve visita ilustre da pequena Safira e da amiga Marina!

Teve visita ilustre da pequena Safira e da amiga Marina!

Teve amigos novos no lançamento do Cambuí Walking Tour

Teve amigos novos no lançamento do Cambuí Walking Tour

Teve a Binitinha!!!

Teve a Binitinha!!!

Teve uma viagem incrível pra Paraty!

Teve uma viagem incrível pra Paraty!

Teve mergulho que rendeu uma selfie com Netuno! So Neptune looked at me and said: Let's take a selfie? Well, I just couldn't refuse. #uwphoto #underwater #mergulho #dive #scuba #scubadive #naonde #livetoscuba #scubadiverslife #PADI

Teve mergulho que rendeu uma selfie com Netuno!

Gente, teve tanta coisa, mas tanta coisa mesmo que teve até…

risotto de strogonoff

Teve até…

 

 

Teve até risotto de strogonoff!!!!

Teve até risotto de strogonoff!!!!

Após esta breve e divertida introdução, digo que muitas destas fotos ganharão seus próprios posts, que serão permeados por algumas lembranças da Ásia, de viagens anteriores e momentos que estou vivendo agora na Inglaterra.

Cês vêm comigo?

Na Gringa, Sobre a vida

Loucademia de puliça ou: sobre como eu fui parar numa delegacia tailandesa

February 12, 2015

Nem bem eu escrevi um post sobre a idéia fraca que é usar drogas na Ásia, fui parar numa delegacia tailandesa. Antes que minha mãe tenha um ataque do coração, já adianto que não teve a ver com qualquer problema relacionado a tóxico (leia-se tóchico) ou algo grave. E agora vamos começar do começo.

Há dez dias meu ar-condicionado quebrou e desde então a dona do quarto me diz que “em dois dias” ele será consertado. Sabe placa de bar (ou de padaria, ou de mercadinho de bairro) que diz: “Fiado só amanhã”? É exatamente esta a situação que estou vivendo. Não que ela esteja negligenciando a situação completamente, já vieram vários técnicos olhar o aparelho, tiraram foto, encomendaram a peça em Krabi, em Bangkok, desmontaram o bicho inteirinho (o que fez o meu lado dona-de-casa feliz, pois me permitiu limpá-lo bem por dentro, inclusive o filtro) e nada de arrumarem. Ela fez, pelo menos, a gentileza de nos arrumar mais um ventilador – e me surgiu a questão de quantos ventiladores seriam necessários, se é que isso é possível, para que fizessem o mesmo efeito de um ar-condicionado?

Chegamos a ter três técnicos tentando consertar o ar ao mesmo tempo e nada...

Chegamos a ter três técnicos tentando consertar o ar ao mesmo tempo e nada…

Enfim, como o plano para o dia era passá-lo inteirinho fora de casa em um iate de balada aqui em Phi Phi, achei que não era o caso de levar meu telefone. Fiquei com medo de caísse água e estragasse e resolvi deixá-lo em casa, bem em cima da cabeceira da cama. Mas na hora de sair me deu um pressentimento meio ruim, sabe intuição feminina? A própria!

A dona do quarto me disse que o técnico viria novamente esta tarde e eu fiquei meio encafifada na hora em que pensei no pobre telefone abandonado. Como ele já tinha vindo aqui outra vez em um momento em que eu não estava e nós não havíamos dado por falta de nada, acreditei que era só muita desconfiança desnecessária da minha parte e não dei ouvidos à minha intuição.

A primeira coisa que eu fiz quando cheguei em casa foi olhar pra cima da cabeceira da cama e adivinhem o que NÃO estava lá? O meu celular! Olhei de baixo da cama, em cima da penteadeira, abri todas as minhas bolsas e mochilas e as do Josh também, nada do telefone ali dentro. Então desci rapidinho para falar com a responsável – nós moramos em cima de uma loja de roupas e a dona do quarto é também a dona da loja, a Nah. Contei, aos trancos e barrancos, o que tinha acontecido e ela ligou para o marido, já que ele tinha ficado responsável pelo conserto do ar. Ele me pediu para procurar novamente e que logo viria para cá. Enquanto isso usamos o telefone da Nah para chamar o meu e nada, só chamava e ninguém atendia. Fizemos uma nova busca quando ele chegou e nada do celular.

delegacia koh phi phi

Por fim nos lembramos da tal da ferramenta “Buscar o meu iPhone” e a primeira tentativa deu errado; o telefone aparecia desligado. Fiquei um pouco mais pelo quarto dando uma última procurada e nisso a Nah aparece dizendo que o marido tinha conseguido encontrar meu telefone no aplicativo. Oba! Saí correndo atrás dele e, juntos, fomos seguindo o GPS até onde o pontinho do meu celular estava aparecendo. No meio do caminho nós fomos passando por diversos bares e ele foi juntando um grupo de amigos tailandeses: “Quando a gente encontrar quem está com o seu telefone vamos dar uma coça nele!” Aproveitaram a muvuca para chamarem a polícia também. Nisso, o pontinho ia ficando cada vez mais perto e ao fundo começou a tocar “Gangnam style” – nós estávamos bem próximos à praia das baladas. Eu já estava fazendo todo o texto da busca do telefone pro blog na minha cabeça e pensar que nós chegaríamos, eu e mais 4 tailandeses, pra enfrentar o ladrão de iPhone e ao som de Psy era a cereja do bolo. Não seria possível escrever um texto mais cool do que esse em toda a blogosfera de viagem. Imagina só eu e mais quatro tailandeses andando em formação de Power Rangers em direção ao ladrão de iPhone e recuperando o bichinho com meia dúzia de golpe de Muay Thai! É claro que não rolou, né?

party beach

Era daqui que vinha o Gangnam Style em alto e bom som!

Quando chegamos no lugar onde os pontinhos se encontraram a polícia também chegou e já nem dava mais pra ouvir “Gangnam style”. Ficamos todos ali “com cara de ué”, como diz a minha avó, em frente às casinhas e pensando em como faríamos a abordagem. A polícia não pode simplesmente bater na porta de alguém e dizer: “Viu, tô vendo aqui que o telefone dela está na sua casa”. O jeito foi irmos para a delegacia, que é praticamente pegada à minha casa, e pensarmos em um novo plano. Ao chegarmos lá, o policial pediu para que eu colocasse os meus dados no site da Apple outra vez e, milagrosamente, o meu celular aparecia nas imediações da delegacia. Estranho, muito estranho. Então o marido da Nat, que estava me ajudando com a busca, disse que iria até o meu quarto dar outra procurada e me disse pra ficar na delegacia. Estranho, muito estranho. Achei que isso não fazia sentido nenhum e fui atrás dele, não queria mais gente mexendo nas minhas coisas hoje. Quando cheguei em casa procurei mais um pouquinho perto da cama e vi que ele estava abaixado perto da gaveta onde guardo minhas camisetas, nisso ele pegou o celular dele e me disse que ia tentar chamar o meu número mais uma vez – nós já havíamos feito isso à exaustão e sempre sem sucesso. Não é que dessa vez ele chama a minha atenção e diz que está ouvindo um telefone tocar? E adivinhem de onde vinha o som? Da minha gaveta de camisetas! Estranho, muito estranho.

É claro que eu fiquei felicíssima de ter recuperado meu telefone, não queria ter que lidar com a dor-de-cabeça que seria tentar recuperar todas as informações e nem teria dinheiro suficiente para comprar um iPhone novo, já que não sei se o seguro cobre roubo internacional. Enfim, o que acontece é que eu estava prontinha pra sair acusando o proprietário do quarto de ter pego meu telefone e “plantado” ele novamente quando percebeu que eu não ia ficar quieta e aceitar tranquilamente que o celular havia desaparecido misteriosamente. Só que eu resolvi ficar quieta e guardar a acusação pra mim mesma e isso foi a melhor coisa que eu fiz.

Naquela noite o Josh tinha ido dormir na casa do irmão dele para continuar as comemorações da despedida de solteiro, que já havia começado no iate da balada, e nós só fomos nos encontrar novamente na noite do dia seguinte. Quando ele chegou em casa, comecei a contar tudo o que tinha acontecido e por fim acabei falando que achava muito estranho o celular ter reaparecido milagrosamente quando o cara estava bem próximo da gaveta sendo que a gente tinha tentado ligar várias vezes e nunca tinha escutado o toque. Então o Josh olha pra mim e fala:

– Mas, Ângela, fui eu que coloquei o telefone na gaveta! Justamente porque o técnico do ar vinha e eu fiquei com medo que ele fosse roubar o seu celular!

– Ah, então a gente tem que ir explicar isso pros proprietários do quarto! Eles devem estar achando que eu sou completamente maluca!!!

E foi assim que terminou a minha anedota da visita à delegacia tailandesa, graças a D’us com final feliz e só a minha fama de maluca espalhada pela vizinhança. Mas quem se importa com isso quando percebe que não apenas é possível confiar na honestidade das pessoas, como também contar com a boa vontade dos tailandeses em ajudar a farang atrapalhada? Essa é apenas uma das razões pelas quais eu gosto tanto da Tailândia.

Na Gringa, Sobre a vida

Quando o barato sai caro: vale a pena usar drogas na Ásia?

February 3, 2015

Imagino que a grande maioria das pessoas no Brasil tenha acompanhado de perto as notícias da execução do instrutor de vôo Marco Archer, que aconteceu dia 17 de janeiro na Indonésia. Eu já nem me lembrava mais do caso, bastante divulgado na época em que aconteceu, até a data do fuzilamento ter sido marcada e mantida, apesar dos esforços diplomáticos do nosso governo.

Eu não acho que pena de morte seja uma solução para qualquer tipo de crime, acredito que não caiba a um ser humano a decisão de tirar a vida de outro; ainda que o erro cometido seja muito grande. É uma situação como as das brincadeiras de criança, quando a gente diz “apelou, perdeu”! Pena de morte, na minha humilde opinião, é uma grande apelação, daquelas que tira completamente a razão de quem a aplica.

Tenho acompanhado as histórias, tanto do Marco Archer quanto do Rodrigo Goularte, desde que elas voltaram a aparecer com frequência nos portais de notícia brasileiro e elas me fizeram pensar no caso de muitos viajantes que usam drogas aqui pela Ásia. Outro dia mesmo dois clientes me perguntaram o que eu achava sobre fumar maconha aqui em Phi Phi – mais pra saber se seria “ok” do que a minha opinião sobre o assunto, é claro.

E dá pra fumar maconha de boa?

Olha, até onde eu saiba, dá sim. Mas eu acho, em português claro e chulo, uma puta cagada. Por uma série de motivos.

Que jogue a primeira pochete de operadora de turismo quem nunca a usou pra guardar o dinheiro e o passaporte na pança durante uma viagem! Ah, usou, né? Aquela mais chumbrega, que tem um elástico maldito que sempre enrola quando você veste a pochete barriga abaixo. E pra que mesmo foi que você tinha uma dessas? Ah é! Pra ninguém passar a mão no seu suado dinheiro no seu valioso passaporte brasileiro (O Naonde? informa: o passaporte brasileiro é o mais caro do mercado negro, chega a valer uns 40 mil Obamas), não é mesmo? Então pra quê, meu filho, que você quer sair por um lugar que você não conhece e alterar o seu estado de consciência? Não basta perder só o dinheiro? Quer perder a dignidade também? Mas tudo bem, você pode só discordar da minha opinião careta de gente que acha que fumar maconha é burrice, fique à vontade – só não vale deixar comentário grosseiro, combinado?

Acontece que há também outras doRgas, mais pesadas do que a tal da cannabis, e que podem causar danos um pouco mais sérios do que a simples perda do rumo do hotel, da dignidade ou de bens materiais… Quem tem vontade de passear pelo Sudeste Asiático, com certeza, já ouviu falar de uma cidade no Laos chamada Vang Vieng. Até dois ou três anos atrás ela era super conhecida como um lugar onde a festa nunca acaba, com infinitos bares à beira do rio onde os turistas desciam a correnteza dentro de bóias feitas de câmaras de pneus. Parece a descrição de um lugar super divertido, né? Eu imagino que até seria mesmo, não fosse pela média de uma morte por afogamento a cada duas semanas, o que fez com que os bares fossem fechados e a festa acabasse lá pelo meio de 2012. A razão das mortes e do fechamento? Muito simples, abuso de substâncias tóxicas, ou, em bom português, doRgas e bebidas.

Vang-Vieng_15

*foto por Alexandra Baackes

O cardápio dos bares de Vang Vieng incluía shakes de cogumelos alucinógenos e pizza com maconha, o que, convenhamos, tem potencial imenso para um desastre quando somado a um rio de correnteza forte e de profundidade menor do que um metro e meio – pular de cabeça em água rasa pode te escangalhar pro resto da vida, vide o Feliz Ano Velho do Marcelo Rubens Paiva.. Fazer isso depois que o sol havia se posto, como muita gente fez, era só a cereja do bolo. Sem luz e com música alta, a probabilidade de ninguém te ver ou ouvir depois de um pulo na água é imensa e a chance de um afogamento aumenta exponencialmente – isso só me faz acreditar que a estatística oficial de 27 mortes em 2011 ser muito menor do que o número real no mesmo ano.

Vang-Vieng_16

*foto por Alexandra Baackes

Mas e por que todo mundo acha que usar drogas na Ásia é de boa?

Esta é uma pergunta que eu tenho me feito desde a primeira vez que pus meus pés no continente, em 2010, e para a qual ainda não consegui encontrar uma resposta satisfatória.

Pensando de uma maneira bastante simplista, a razão mais óbvia que me ocorre é o fato de que drogas, assim como prostituição, são um fator que atraem turistas e como o turismo é uma das principais indústrias na Tailândia… Assim, é comum que a polícia simplesmente finja que não vê os viajantes consumindo entorpecentes dos mais variados tipos; a não ser que a coisa fique muito fora de controle, como tentar entrar na Indonésia com 13Kg de cocaína escondidos em tubos de asa-delta.

Além disso, não é incomum que o próprio traficante que te vendeu “a parada” te dedure pra polícia. A razão? Muito simples, é só pra ganhar um dinheirinho a mais mesmo, sem “maldade” ou pensamentos do tipo “não fui com a cara desse turista, vou ferrar com a vida dele!”. Quando alguém é incriminado por porte de drogas a situação pode ser resolvida de duas maneiras: cumprindo sua pena na cadeia ou pagando uma propina para que o caso seja devidamente esquecido e a ficha criminal apagada. Caso a opção seja pelo pagamento, a polícia embolsa o dinheiro e o dedo-duro recebe uma parte da propina. Tudo muito fácil, tudo muito rápido, tudo muito simples. Afinal de contas você vai fazer o que? Reclamar pra polícia que um oficial corrupto te pediu um extra “pra comprar o leite das crianças” pra te livrar de ir pra prisão por posse de drogas? Não vai, né? A polícia é corrupta, mas não é besta.

A grande maioria dos trabalhadores do sudeste asiático recebe um salário baixíssimo, cerca de US$ 300,00 por mês, o que faz com que eles nos vejam como milionários. A gente, que não é nenhuma Paris Hilton da vida e viaja de mochila nas costas contando as moedinhas pra pagar o almoço, acha que essa visão deles é completamente distorcida. Mas, vem comigo que eu te explico porque ela não está tão fora de esquadro assim:

Se coloque no lugar de alguém que trabalhe duro – do tipo empurrar carrinhos cheios de tanques de mergulho, algo como 20 tanques de 12 litros cada um, para cima e para baixo sob muito sol – e ganhe US$ 300,00. Então você vê turistas, que gastaram mais do que três vezes o seu salário apenas na passagem de avião, gastando um monte de dinheiro com festas, bebidas e drogas todas as noites; não é difícil entender que eles vejam nesses turistas a oportunidade de ganhar “um a mais”. Eu não disse que acho que isso seja certo, só acho que não seja impossível de compreender essa lógica.

Caso o turista não queira desembolsar o dinheiro da propina, ele é mandado para a cadeia e a polícia pode ficar tranquila. Ela só estava cumprindo o trabalho dela ao prender um usuário de drogas. De qualquer maneira, a corda vai sempre arrebentar do lado mais fraco e, neste caso, ele é você mesmo, meu caro amigo turista.

Algumas outras fontes

A Hamlet of Hedonism: the town of Vang Vieng – post da Alex sobre os dias que ela passou em Vang Vieng

Why are backpackers in Asia so stupid? – post do Matt sobre o comportamento perigoso de alguns viajantes por essas bandas

Drugs in Laos? How stupid can you get? – post da Kate sobre usar drogas no Laos.

Brasileiro condenado à morte na Indonésia escolheu ser fuzilado em pé – reportagem da Folha sobre o fuzilamento de Marco Archer

Snowing in Bali – livro da jornalista australiana Kathryn Bonella sobre a vida dos traficantes em Bali

*Meu muito obrigada à Alex, do Alex in Wanderland, por ter gentilmente me cedido as fotos de Vang VIeng.

Hospedagem, Na Gringa, Sobre a vida

A saga da acomodação em Phi Phi

January 19, 2015

Como minha permanência na Tailândia sempre teve caráter provisório, a questão “onde morar” nunca foi uma que tenha me tirado o sono. Sabia que seria fácil encontrar um lugar para ficar quando chegasse aqui no final de julho, pois a oferta durante a baixa temporada é sempre grande e minha intenção era passar cerca de três meses por aqui, o tempo que duraria meu curso de divemaster. Escrevi sobre minha primeira acomodação em Phi Phi neste post aqui.

A entrada da minha "humilde residência".

No fim do primeiro mês que estava naquele quarto eu já havia começado a me encher um pouco da escuridão, a única janela que havia dava para um corredor e a luz do dia quase não entrava, do chuveiro frio, do calor que fazia no quarto e do qual do ventilador nem sempre dava conta, da cama dura como pedra, mas principalmente estava cheia da barulheira que os hóspedes dos outros quartos faziam quando voltavam de madrugada. Havia cinco outros quartos no mesmo corredor e a maioria deles era ocupada por mochileiros que iam para a balada todas as noites e sempre chegavam completamente bêbados, berrando e batendo todas as portas. É tudo o que você quer e precisa quando tem que acordar todo dia às 06:15 pra ir mergulhar. A gota d’água aconteceu às quatro da manhã, quando um cara passou, colocando a cara em cada uma das janelas e gritando “Fulana! Você está aí?”. Não me aguentei e disse pra ele fica quieto, que eu tinha que acordar pra trabalhar em duas horas e que ele parasse de incomodar as outras pessoas também. E foi aí que veio o maior desaforo: ” Não estou nem aí se você precisa dormir ou não! Eu estou procurando por uma pessoa que está muito doente e você deveria ter mais respeito!”.  Eu simplesmente respondi: “Meu filho, são quatro horas da manhã em Koh Phi Phi. A essa hora, quem está ‘doente’, está é bêbado e se ela não está na sua cama é porque está na de outro. Cai fora!” Depois dessa verdade jogada na cara o corno ficou manso e quieto, mas eu havia chegado no meu limite de ser acordada pela barulheira alheia.

Uns dias depois meu amigo Federico disse que ele e a namorada iam se mudar pra um quarto novo, com uma janela imensa, ar-condicionado e chuveiro quente numa área bem silenciosa. A secretária da escola onde trabalhamos é que tinha dado a dica pra ele, pois a dona dos quartos era uma amiga dela e o preço seria o mesmo durante a alta temporada também. Não pensei duas vezes e pedi pra ela entrar em contato com a responsável, não queria deixar a oportunidade passar de jeito nenhum. Foi e não foi a maior burrada que eu fiz desde que cheguei na Tailândia.

Por que não foi

Simplesmente porque o quarto era mesmo ótimo. Como havia acabado de ser construído, tudo estava novinho e impecável, o ar-condicionado ainda estava limpinho, a cama era super grande e confortável e eles limpavam a cada quatro dias. E, bom, a vista da janela era essa aqui.

room phi phi

Por que foi

Porque a secretária, hoje ex-funcionária da escola, começou a dar sinais de que a coisa não ia muito bem um pouco depois que eu paguei o depósito inicial para garantir o quarto. Disse que o marido da amiga dela estava reconsiderando alugar os quartos por mês, pois poderia fazer muito mais dinheiro com as diárias que os turistas pagariam durante a alta temporada, mas que a amiga é que era a dona e ela preferia ter gente de confiança permanentemente do que gente entrando e saindo a cada dois dias. Eu deveria ter confiado na minha intuição e pedido meu dinheiro de volta antes de me mudar, mas a preguiça de procurar outro lugar, negociar preço e a insatisfação com a casinha anterior me venceram, de modo que acabei me mudando no começo de outubro. No fim do mês eu viajaria um pouco pela Ásia com uma amiga, como eu não queria deixar o quarto vazio e o Josh estava procurando acomodação, combinei com ele que ele ficaria lá até que eu voltasse das férias e então nós passaríamos a dividir o quarto. Qual não foi a minha surpresa ao descobrir, nos primeiros dias de novembro, que a dona dos bangalôs havia decidido nos colocar pra fora. Nós pagávamos 18 mil Baht por mês com todas as despesas incluídas e ela poderia, facilmente, cobrar 1500 Baht dos turistas pela diária; é claro que a fofa nos ofereceu a possibilidade de continuarmos lá durante a alta temporada pela módica quantia de 30 mil Baht – que é, mais ou menos, o que eu pagava de aluguel em um apartamento de 50m2 na Berrini. Chegamos à conclusão de que a mulher estava mais louca que o Batman e que deveríamos sair de lá o mais rápido possível. O detalhe? O Josh estava em Phi Phi e eu no Cambodia, então o coitado teve que fazer tudo sozinho; desde encontrar um outro quarto até a nossa mudança toda, o que não foi uma tarefa nada fácil no início da alta temporada.

room phi phi

Passei a noite praticamente em claro, com a cabeça a mil, pensando em tantas possibilidades quantas me ocorreram. E se ele não conseguir achar um quarto vago? E se o único quarto vago que ele achar for muito caro? Vou virar uma sem-teto? Vou ter integrar algum movimento tailandês dos sem-teto? Existe um movimento tailandês dos sem-teto? Vou ter que voltar pro Brasil? Vou ter dinheiro pra voltar pro Brasil? Vou ter trabalho quando eu voltar pro Brasil? E tudo o que eu deixei em Phi Phi? Foi parar no meio da rua? Tudo bem que não era muita coisa, mas mesmo assim. E o Josh? Onde vai morar? Vai ter que voltar pra Inglaterra? Vai conseguir encontrar um quarto novo sozinho? Será que eu vou ter que voltar pra Phi Phi antes do planejado pra ajudá-lo a procurar uma casa? Em resumo, eu parecia um peixe fora d’água enquanto me debatia de um lado para o outro na cama e não conseguia dormir.

Dois dias depois chegou a foto acima e a ótima notícia de que ele havia encontrado um quarto para nós dois. Ufa! Acabara-se a insônia e consegui aproveitar o resto da viagem com a minha amiga. A localização era melhor que a do anterior, mais perto do trabalho e num lugar ainda mais silencioso, já que estaríamos nos fundos. Mas o melhor de tudo é que o preço seria o mesmo durante toda a alta temporada e que nós poderíamos ter o quarto durante todo o período, sem medo de sermos despejados novamente.

Sobre a vida

Ângela Goldstein, blogueira e mendiga

January 15, 2015

Oooi, meu nome é Ângela e eu sou uma pessoa que tem uma relação esquisita, de amor e ódio, com roupas.

*Esse é o momento em que todo mundo responde “Ooooi, Ângela” mentalmente e me aceita do jeitinho que eu sou, sem me julgar, como aconteceria em um grupo de apoio.

Uma vez feita a confissão inicial, posso prosseguir com uma explicação um pouco mais aprofundada do tema. Apesar de ter tido mochila da Kipling e aquele moletom do urso da Ralph Lauren, como toda adolescente dos anos 90 que se preze, eu nunca fui da turma das patricinhas, aquelas meninas que estão sempre usando as roupas da moda e todo dia levam horas se arrumando para ir à escola. Eu usava as roupas que meus pais podiam comprar e também fazia muitas delas – pois é, eu costuro desde os 16 anos – em resumo, eu gostava de usar as roupas que eu achava legais, sem que elas necessariamente estivessem na moda.

Ângela Goldstein

Então eu cresci, passei no vestibular e fui estudar Letras na USP. Quem aqui já esteve em faculdade de humanas de universidade pública consegue imaginar o que isso quer dizer, o grau de despreocupação dos colegas com o ‘”look do dia” é tanto que um deles certa vez me disse que eu era integrante do “Núcleo patty da FFLCH”, eu quase caí pra trás na hora que ouvi aquilo.

Forte Orange

A foto foi tirada em Recife – PE, mas esse era um modelito que usava sempre para ir às aulas da faculdade. Nada patricinha, certo?

No último ano da graduação eu fui contratada por uma escola de inglês para dar aulas para os executivos da Berrini, uma daquelas avenidas de São Paulo cheia de gente carregando bolsas Louis Vuitton e usando ternos bem cortados, e então precisei me preocupar mais com a maneira de me vestir. Eu sou uma pessoa extremamente preguiçosa – minha mãe me chama, carinhosamente, de molusca – e simplesmente não tenho disposição de me produzir diariamente. Preciso confessar que eu tenho uma certa inveja de gente que passa maquiagem e usa salto todo dia, mas eu não troco esses minutos a mais na cama pra me me arrumar pro trabalho por nada no mundo. Não que eu alguma vez tenha ido descabelada pro trabalho, mas eu tenho que admitir que às vezes eu sou aquela pessoa que você olha na rua e pensa: “Gente! Essa moça não tem mãe em casa pra falar que essa roupa não está boa?”  Vou te contar um segredo: eu tenho mãe em casa e ela sempre fala, eu é que finjo que não ouço.

Então ontem me peguei um pouco saudosa do Brasil e resolvi olhar algumas fotos do ano passado, foi então que me deparei com isso aqui…

Burberry

Sim, minha gente, o ser humano da foto acima sou eu mesma… Fazendo compras na Burberry, no Iguatemi JK, onde tem uma vendedora que me conhece pelo nome. Fez sentido pra vocês? Pois é, pra mim também não. Mas eu disse que eu tinha uma relação esquisita com as minhas roupas…

“E o que isso tem a ver com um blog de viagens?”, você me pergunta. Eu digo que tudo, meu querido leitor, uma vez que viajar só fez com que os meus looks do dia voltassem a ser o esculacho que eram na minha época de faculdade… A começar pelo método Ângela Goldstein de arrumar a mala: escolha roupas velhas, aquelas que você doaria na próxima oportunidade, leve para o seu destino e deixe-as lá na hora de voltar pra casa. Quer coisa mais eficiente? Elimina aquele monte de roupa suja e a necessidade de lavá-las na hora da chegada, além de liberar espaço precioso pra você colocar os seus souvenirs. Sem contar que você sempre pode usar a desculpa de que se desfez de peças velhas para poder comprar roupas bacanas no lugar que você estiver visitando.

Mas e como isso fez de mim uma mendiga?

Eu tenho uma camiseta, branca estampada com maçãzinhas pretas e vermelhas, que eu simplesmente adoro e que já rodou meio mundo comigo. Hoje em dia ela conta com dois pequenos furos na frente, um maiorzinho e um pequenino nas costas e, para o mais completo horror da minha mãe, eu sigo usando normalmente. Abaixo você pode ver minha fiel companheira em três momentos diferentes: na Ilha de Páscoa, na Chapada dos Veadeiros e no Laos.

Ahu tongarikichapada dos veadeirosLuang Prabang

Acontece que em Phi Phi é normal usar roupa com furinho, um furo só se torna inaceitável por aqui a partir do momento em que você consegue passar mais de dois dedos por ele, qualquer coisa menor que isso está absolutamente dentro dos padrões nada rígidos que temos na ilha. Aqui, ninguém tem máquina de lavar roupa ou tanque em casa, de modo que todo mundo tem que terceirizar esse serviço e eu sei lá em que condições as minhas roupas são lavadas, tenho uma séria suspeita de que elas não sejam separadas por cor e certeza de que absolutamente nada é lavado na mão. Pensando nisso, por que eu traria as minhas melhores roupas pra cá? Em segundo lugar vem a umidade, quem mora na praia sabe a desgraça que isso é, mais cedo ou mais tarde tudo acaba estragando por causa do mofo acumulado. Por último vem o tipo de trabalho que eu faço na escola de mergulho; as caixas nas quais os equipamentos são transportados para o barco têm alças de metal enferrujadas e a mancha que elas deixam quando encostam na roupa não sai nunca mais. Some-se a isso o único tipo de calçado aceitável na ilha; Havaianas, as legítimas.

Então foi assim, a partir de uma combinação de roupa velha com furinho e manchinhas de ferrugem que eu fui me tornando ainda mais relaxada do que eu era antes. Mas às vezes a gente ainda consegue tornar a camiseta velha aceitável colocando-a num cenário bacana e segurando no carão.

Em Angkor Wat, no Cambodia.

Em Angkor Wat, no Cambodia.

Sobre a vida

Retrospectiva 2014

January 10, 2015

E eis que 2015 já começou há 10 dias e que eu não escrevo há mais de mês. Sabe gente que procrastina? Então, essa pessoa sou eu! Acontece que às vezes me pego um pouco sem assunto, um tanto sem foco e com mais um outro tanto substancial de nitrogênio acumulado que me dá um soooono… Some-se a isso muito calor e quase nenhum tempo livre e o resultado é uma Ângela deitada na cama, aproveitando o ar-condicionado e vendo capítulos de O Clone pelo youtube – me julguem, eu adoro novela reprisada, eu gosto das novelas da Glória Perez e sinto falta de ouvir português de vez em quando. Mas o Google Analyticsme diz que a audiência do blog não só tem se mantido, tem aumentado!, e aí dá vontade de voltar a vir aqui e escrever, contar sobre um monte de coisa que tem acontecido e tudo mais, de modo que voltei!

Achei que seria interessante começar o ano pensando nas coisas muito legais que eu fiz no ano passado e usá-las como um gancho para futuros escritos por aqui. Vamos lá?

2014 foi o ano em que eu resolvi que não queria mais adiar um plano antigo e comprei uma passagem só de ida para a Tailândia. Não foi uma decisão fácil e nem rápida – envolveu muita conversa com amigos, planejamento de tempo e gastos com compra de equipamento de mergulho -, mas que me trouxe uma felicidade que eu não experimentava há muito tempo. Foi muito bom me sentir tão dona da minha vida, tão capaz de poder sonhar e realizar.

comprei a passagem

Foi também o ano em que eu mais mergulhei, desde que fiz meu curso básico em 2011, e quem me conhece sabe o quanto isso é algo que me deixa feliz e contente. Por causa disso conheci lugares novos no Brasil, visitei amigos, encorajei outros a conhecer o fundo do mar e colecionei mais três carteirinhas: Primeiros socorros, resgate e divemaster, o primeiro passo na carreira profissional.

curso de resgate

É claro que foi um bom ano no que diz respeito a viagens. Depois de um ano recebendo convites de um amigo querido finalmente fui a Barra de São João, RJ, só pra depois ficar me perguntando por que é que eu demorei tanto tempo para ir até lá. Voltei para outros países do Sudeste Asiático na companhia de uma amiga queridíssima e tive 20 horas para explorar Cingapura por minha própria conta.

Singapore flyer

Mudei de casa e de endereço mais de uma vez desde que cheguei em Phi Phi, mudei de profissão, mudei – ou, melhor dizendo, o sol mudou – a cor do meu cabelo e da minha pele, finalmente aprendi a falar espanhol com amigos venezuelanos e argentinos que conheci no trabalho novo e me apaixonei, perdidamente, por um inglês que conheci na Tailândia.

Ângela e Josh

2014 foi, enfim, um ano do caralho e tudo o que eu posso querer é que 2015 seja tão bom quanto, pra mim e pra você que me lê. Feliz ano novo!