Na Gringa, Sobre a vida

Como chegar em Tupiza – sem perder nada no meio do caminho

December 1, 2015

O passeio mais esperado da viagem que fiz para a Bolívia no começo de novembro era o do salar de Uyuni e para chegarmos lá, precisávamos antes chegar em Tupiza. Minha companheira de aventuras, como quase sempre, não era um Toddynho e sim a amiga Yara. O plano era dar início ao tour de cinco dias no 03/11 e para isso deveríamos pegar o ônibus que nos levaria ao sul do país no dia 02/11, pensamos em passar o dia em trânsito e a noite em Tupiza. Fácil, né não?

rodoviária de la paz

Achei que o trâmite todo de como chegar em Tupiza seria parecido com o brasileiro, chegar na rodoviária, comprar o bilhete e embarcar. Na verdade, como tinha sido possível reservar um outro tour através do hotel, perguntei à recepção se seria possível fazer a reserva das passagens com eles também. Me informaram que eu deveria ir até o terminal e comprá-las lá. Mais uma vez achei que não seria problema algum, tinha um fim de tarde e praticamente um dia inteiro de antecedência para resolver o assunto. Ledo engano.

Primeiro porque a caminhadinha até o terminal já foi osso, muitas ladeiras numa altitude de 4000m (onde quase não há oxigênio) é pra acabar com qualquer um. Parecia que a cada passo que dávamos a rodoviária ficava dois mais distante. Mas chegamos e fomos procurar quais empresas fariam o trajeto, há mais de uma, quanto custaria e quais os horários de saída. No primeiro guichê onde perguntamos, nos informaram que não haveria ônibus para o dia seguinte, apenas naquela mesma noite ou só dois dias depois. Fomos a mais duas companhias e ouvimos sempre a mesma resposta, não haveria ônibus na segunda-feira pois era feriado. Boas paulistas que somos, nos indignamos um pouco com o fato de que um mísero feriadinho ser suficiente para interromper o transporte rodoviário do país (“Esse povo não sabe ganhar dinheiro!”) e depois tivemos um leve ataque de pânico quando pensamos que teríamos que sair do hotel o mais rápido possível e passar um dia a mais em Tupiza; o jeito seria pegar o busão naquela noite mesmo e isso significaria 14 horas de viagem depois de um dia passeando por Tiwanaku sem intervalo para banho entre uma coisa e outra.

Resolvemos voltar ao hotel e entrar em contato com a operadora de Tupiza, perguntaríamos se seria possível adiar a saída para o dia 05/11, se não fosse amargaríamos o busão naquela noite mesmo. Felizmente eles foram super flexíveis e ficou acertado que sairíamos de La Paz na terça-feira. Voltamos à rodoviária e compramos nossas passagens com a Trans del Sur, que sairia às 18h. Voltamos ao hotel e pedimos para ficarmos mais uma noite, mas nada feito, eles estavam lotados e nós teríamos que sair na manhã seguinte – curiosamente a gente não se lembrava de ter escolhido o passeio “com emoção” em momento algum, talvez alguém tenha escolhido por nós. De qualquer maneira, esse foi um dos menores empecilhos da viagem; uma rápida olhada no guia foi o suficiente para encontrarmos nosso novo hotel.

O último dia em La Paz fez jus ao nome da cidade e transcorreu na maior tranquilidade, passeamos bastante e às 17:30 estávamos bonitinhas na rodoviária conforme a orientação da moça que havia nos vendido a passagem. Ela logo nos levou à plataforma de onde sairia nosso ônibus e lá ficamos esperando e brincando de “Qual o busão?”

Uma bela pintura na rodoviária de La Paz

Uma bela pintura na rodoviária de La Paz

Quem já pegou ônibus na Bolívia sabe bem do que estou falando. Ao contrário do Brasil, onde hoje em dia a grande maioria dos ônibus é igualmente boa e confortável, na Bolívia há ônibus de todos os tipos: dos bem bonitos, modernos e que parecem muito confortáveis, até os que aparentam ser bem velhos, desconfortáveis e com muito potencial para causar aquele perrengue básico na sua viagem. Cada vez que víamos um entrando no terminal, torcíamos para ser ou não o nosso. O não geralmente vinha acompanhado daquelas fantásticas pinturas nas laterais dos ônibus: onças, Cristo Redentor, paisagens e até mariachis – tem pra todos os gostos.

Uma hora depois, quando a gente já tinha cansado de brincar de “Qual o busão?”, o nosso finalmente chegou. Abriram o porta-malas e começaram a carregar um monte de sacos de estopa lá pra dentro, então colocaram as malas de todos os passageiros. Procuramos nossos assentos, nos acomodamos, achando que a sorte estava do nosso lado – as poltronas reclinavam bastante e havia até um bom apoio para os pés e as pernas. Dormimos um pouquinho até a primeira parada, cerca de duas horas depois de sairmos de La Paz, e lá descemos para procurar um banheiro. Na hora em que íamos juntas me deu um estalo e falei pra Yara:

– Vai você e eu vou ficar aqui de olho nas malas e no busão.

Eu já tinha ouvido histórias de malas roubadas, tanto de amigos viajantes quanto no próprio Lonely Planet e achei melhor não dar chance ao azar. Uns cinco minutos depois da Yara ter saído o ônibus começou a dar ré e a lentamente sair do terminal. Me agarrei à porta, que ainda estava aberta e pedi ao motorista que esperasse mais cinco minutinhos, pois minha amiga ainda não havia voltado. Com um mau humor e uma má vontade características de quem toma um copo de vinagre todo dia ao acordar, o motorista que tinha atrasado UMA HORA, me diz:

– Isso aqui não é um ônibus de excursão pra eu ficar esperando passageiro! É um ônibus de passageiros, eu tenho horário para cumprir, passageiros para transportar!

É claro que eu não disse a ele exatamente o que eu gostaria de ter tido, simplesmente falei:

– Justamente, o senhor tem passageiros para transportar e por isso mesmo não pode sair sem uma delas!

Mesmo assim ele continuou a dar ré e eu, pendurada na porta, comecei a gritar que ele não podia sair antes da Yara voltar. Nisso ele foi ficando cada vez mais nervoso porque os ônibus que chegaram depois do nosso dependiam dele sair para liberar a vaga e eles poderem estacionar. Fomos dando ré, eu pendurada na porta e ele querendo fechá-la, um brigando com o outro, ele me dizendo que eu deveria ir buscar minha amiga e voltar ao ônibus e eu dizendo que não ia, porque se eu saísse ele iria embora sem mim. Quando eu já estava começando a pensar se seria pior deixar as malas seguirem e ficar com a Yara ou se seria pior deixar a Yara e ir com as malas, ele se compadeceu e falou:

– Olha, eu vou estacionar ali em frente à saída e você vai buscar a sua amiga.

Fiz ele prometer que não iria e saí correndo em busca da Yara, que estava com uma carinha de cachorro perdido, sozinha na plataforma. Berrei de onde eu estava mesmo que era pra ela correr, que o ônibus estava quase saindo sem a gente. Ela correu e entramos arfando de volta no busão, a 4000m de altitude não há ar. Mesmo. Entramos no ônibus e ainda tivemos que agradecer ao motorista por ele não ter nos deixado numa rodoviária no interior da Bolívia no meio da noite. Fomos até nossos lugares e nos deparamos com um casal ocupando nossos assentos, eu devo ter feito uma expressão de desolamento tão tão grande que a mulher nem me esperou falar nada, simplesmente nos perguntou se aqueles eram nossos lugares e rapidamente saiu quando disse que sim. No que nos acomodamos, o casal que estava sentado nos bancos ao lado dos nossos entra correndo no ônibus, outros dois passageiros que teriam sido largados lá se eu não tivesse feito o motorista esperar pela Yara.

Depois disso a viagem transcorreu tranquilamente, com apenas uma parada no banheiro mais sujo da Bolívia e um frio de bater o queixo durante todo o trajeto.

Tupiza

Quando o dia começou a raiar fizemos a última parada antes de chegarmos a Tupiza e mais uma vez o motorista quase esquece um passageiro. Umas duas horas depois o ônibus pára e percebemos uma movimentação dos passageiros, gente subindo e descendo, pegando as malas e quase todos conversando. Então um deles olha pra mim e pergunta se vamos a Villazón. Eu não fazia idéia de onde era Villazón e disse que não, que íamos a Tupiza.

– Mas nós já estamos em Tupiza. Há um bloqueio na estrada e os ônibus não podem passar, vocês vão ter que ir a pé até o centro.

Tupiza

Não teve outro jeito. Pegamos as malas e perguntamos a alguém quanto tempo demoraria até chegarmos ao centro da cidade. Cerca de 30 minutos andando. Começamos nossa longa caminhada até o hotel, que durou um pouco mais de meia hora, e fomos contornando muitos carros, caminhões e motos que travavam as ruas da cidade. No fim deu tudo certo!

Tupiza

Lições aprendidas:

Não é fácil chegar em Tupiza;

O busão raramente sai no horário;

Certifique-se com o motorista da duração das paradas, na dúvida deixe uma amiga plantada na porta do busão e disposta a brigar com o motorista por sua causa;

Leve um casaco bem quente, se possível um poncho, se a viagem for noturna;

Dê preferência às malas que podem ser carregadas nos ombros ou mochilas, nunca se sabe quando será necessário ir andando da estrada ao seu hotel;

Bom humor, sempre.

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