Na Gringa, Sobre a vida

Quando o barato sai caro: vale a pena usar drogas na Ásia?

February 3, 2015

Imagino que a grande maioria das pessoas no Brasil tenha acompanhado de perto as notícias da execução do instrutor de vôo Marco Archer, que aconteceu dia 17 de janeiro na Indonésia. Eu já nem me lembrava mais do caso, bastante divulgado na época em que aconteceu, até a data do fuzilamento ter sido marcada e mantida, apesar dos esforços diplomáticos do nosso governo.

Eu não acho que pena de morte seja uma solução para qualquer tipo de crime, acredito que não caiba a um ser humano a decisão de tirar a vida de outro; ainda que o erro cometido seja muito grande. É uma situação como as das brincadeiras de criança, quando a gente diz “apelou, perdeu”! Pena de morte, na minha humilde opinião, é uma grande apelação, daquelas que tira completamente a razão de quem a aplica.

Tenho acompanhado as histórias, tanto do Marco Archer quanto do Rodrigo Goularte, desde que elas voltaram a aparecer com frequência nos portais de notícia brasileiro e elas me fizeram pensar no caso de muitos viajantes que usam drogas aqui pela Ásia. Outro dia mesmo dois clientes me perguntaram o que eu achava sobre fumar maconha aqui em Phi Phi – mais pra saber se seria “ok” do que a minha opinião sobre o assunto, é claro.

E dá pra fumar maconha de boa?

Olha, até onde eu saiba, dá sim. Mas eu acho, em português claro e chulo, uma puta cagada. Por uma série de motivos.

Que jogue a primeira pochete de operadora de turismo quem nunca a usou pra guardar o dinheiro e o passaporte na pança durante uma viagem! Ah, usou, né? Aquela mais chumbrega, que tem um elástico maldito que sempre enrola quando você veste a pochete barriga abaixo. E pra que mesmo foi que você tinha uma dessas? Ah é! Pra ninguém passar a mão no seu suado dinheiro no seu valioso passaporte brasileiro (O Naonde? informa: o passaporte brasileiro é o mais caro do mercado negro, chega a valer uns 40 mil Obamas), não é mesmo? Então pra quê, meu filho, que você quer sair por um lugar que você não conhece e alterar o seu estado de consciência? Não basta perder só o dinheiro? Quer perder a dignidade também? Mas tudo bem, você pode só discordar da minha opinião careta de gente que acha que fumar maconha é burrice, fique à vontade – só não vale deixar comentário grosseiro, combinado?

Acontece que há também outras doRgas, mais pesadas do que a tal da cannabis, e que podem causar danos um pouco mais sérios do que a simples perda do rumo do hotel, da dignidade ou de bens materiais… Quem tem vontade de passear pelo Sudeste Asiático, com certeza, já ouviu falar de uma cidade no Laos chamada Vang Vieng. Até dois ou três anos atrás ela era super conhecida como um lugar onde a festa nunca acaba, com infinitos bares à beira do rio onde os turistas desciam a correnteza dentro de bóias feitas de câmaras de pneus. Parece a descrição de um lugar super divertido, né? Eu imagino que até seria mesmo, não fosse pela média de uma morte por afogamento a cada duas semanas, o que fez com que os bares fossem fechados e a festa acabasse lá pelo meio de 2012. A razão das mortes e do fechamento? Muito simples, abuso de substâncias tóxicas, ou, em bom português, doRgas e bebidas.

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*foto por Alexandra Baackes

O cardápio dos bares de Vang Vieng incluía shakes de cogumelos alucinógenos e pizza com maconha, o que, convenhamos, tem potencial imenso para um desastre quando somado a um rio de correnteza forte e de profundidade menor do que um metro e meio – pular de cabeça em água rasa pode te escangalhar pro resto da vida, vide o Feliz Ano Velho do Marcelo Rubens Paiva.. Fazer isso depois que o sol havia se posto, como muita gente fez, era só a cereja do bolo. Sem luz e com música alta, a probabilidade de ninguém te ver ou ouvir depois de um pulo na água é imensa e a chance de um afogamento aumenta exponencialmente – isso só me faz acreditar que a estatística oficial de 27 mortes em 2011 ser muito menor do que o número real no mesmo ano.

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*foto por Alexandra Baackes

Mas e por que todo mundo acha que usar drogas na Ásia é de boa?

Esta é uma pergunta que eu tenho me feito desde a primeira vez que pus meus pés no continente, em 2010, e para a qual ainda não consegui encontrar uma resposta satisfatória.

Pensando de uma maneira bastante simplista, a razão mais óbvia que me ocorre é o fato de que drogas, assim como prostituição, são um fator que atraem turistas e como o turismo é uma das principais indústrias na Tailândia… Assim, é comum que a polícia simplesmente finja que não vê os viajantes consumindo entorpecentes dos mais variados tipos; a não ser que a coisa fique muito fora de controle, como tentar entrar na Indonésia com 13Kg de cocaína escondidos em tubos de asa-delta.

Além disso, não é incomum que o próprio traficante que te vendeu “a parada” te dedure pra polícia. A razão? Muito simples, é só pra ganhar um dinheirinho a mais mesmo, sem “maldade” ou pensamentos do tipo “não fui com a cara desse turista, vou ferrar com a vida dele!”. Quando alguém é incriminado por porte de drogas a situação pode ser resolvida de duas maneiras: cumprindo sua pena na cadeia ou pagando uma propina para que o caso seja devidamente esquecido e a ficha criminal apagada. Caso a opção seja pelo pagamento, a polícia embolsa o dinheiro e o dedo-duro recebe uma parte da propina. Tudo muito fácil, tudo muito rápido, tudo muito simples. Afinal de contas você vai fazer o que? Reclamar pra polícia que um oficial corrupto te pediu um extra “pra comprar o leite das crianças” pra te livrar de ir pra prisão por posse de drogas? Não vai, né? A polícia é corrupta, mas não é besta.

A grande maioria dos trabalhadores do sudeste asiático recebe um salário baixíssimo, cerca de US$ 300,00 por mês, o que faz com que eles nos vejam como milionários. A gente, que não é nenhuma Paris Hilton da vida e viaja de mochila nas costas contando as moedinhas pra pagar o almoço, acha que essa visão deles é completamente distorcida. Mas, vem comigo que eu te explico porque ela não está tão fora de esquadro assim:

Se coloque no lugar de alguém que trabalhe duro – do tipo empurrar carrinhos cheios de tanques de mergulho, algo como 20 tanques de 12 litros cada um, para cima e para baixo sob muito sol – e ganhe US$ 300,00. Então você vê turistas, que gastaram mais do que três vezes o seu salário apenas na passagem de avião, gastando um monte de dinheiro com festas, bebidas e drogas todas as noites; não é difícil entender que eles vejam nesses turistas a oportunidade de ganhar “um a mais”. Eu não disse que acho que isso seja certo, só acho que não seja impossível de compreender essa lógica.

Caso o turista não queira desembolsar o dinheiro da propina, ele é mandado para a cadeia e a polícia pode ficar tranquila. Ela só estava cumprindo o trabalho dela ao prender um usuário de drogas. De qualquer maneira, a corda vai sempre arrebentar do lado mais fraco e, neste caso, ele é você mesmo, meu caro amigo turista.

Algumas outras fontes

A Hamlet of Hedonism: the town of Vang Vieng – post da Alex sobre os dias que ela passou em Vang Vieng

Why are backpackers in Asia so stupid? – post do Matt sobre o comportamento perigoso de alguns viajantes por essas bandas

Drugs in Laos? How stupid can you get? – post da Kate sobre usar drogas no Laos.

Brasileiro condenado à morte na Indonésia escolheu ser fuzilado em pé – reportagem da Folha sobre o fuzilamento de Marco Archer

Snowing in Bali – livro da jornalista australiana Kathryn Bonella sobre a vida dos traficantes em Bali

*Meu muito obrigada à Alex, do Alex in Wanderland, por ter gentilmente me cedido as fotos de Vang VIeng.

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