Braseel, Sobre a vida

Jalapão

September 10, 2015

Quando a família que me hospedou durante meu intercâmbio na Alemanha veio nos visitar em 2003, minha mãe quis levá-los para o Jalapão; ela tinha acabado de ver uma reportagem em alguma revista de turismo e achou que eles se interessariam pelo passeio. Este parque estadual no Tocantins tinha virado atração turística há bem pouco tempo e ainda era um destino bastante desconhecido. Por algum motivo que não me lembro, esse não foi um dos passeios que fizemos com eles – Foz do Iguaçú sim, é claro. (Eu tenho má vontade com Foz do Iguaçú, #prontofalei)

A Serra do Espírito Santo é o meu fundo de tela até hoje.

A Serra do Espírito Santo é o meu fundo de tela até hoje.

Quase dez anos depois, no fim de 2012, umas fotos do Jalapão pipocaram no meu Facebook e eu fiquei com muita vontade de conhecer o lugar. Comecei a procurar mais informações na internet e vi que a maioria das agências incluíam uma visita ao povoado Mumbuca no roteiro, descartei todas elas pois detesto esse tipo de turismo que inclui safári humano. Já imaginou um grupo de pessoas chegando no seu lugar de trabalho, na sua casa e apresentar tudo isso como exótico e pitoresco pra um grupo de curiosos? Não gostaria que fizessem comigo, então também não faço com os outros. Por fim encontrei a Korubo, que depois descobri ser a empresa mais antiga daquelas bandas e que apenas oferecia passeios pelas atrações naturais das redondezas. Não tive dúvidas e acertei com eles a minha ida para a primeira semana de março, meu vôo sairia de Campinas no dia seguinte à defesa da minha tese de mestrado.

A hospedagem seria em um acampamento, nós ficaríamos em barracas na beira do Rio Novo e essa seria a nossa base para explorarmos o Jalapão em um caminhão convertido em ônibus. Eu sou uma caipira da cidade, com bem pouca experiência de acampamento e que gosta muito do conforto proporcionado por uma cama macia e banheiros de alvenaria. Sabe, a humanidade demorou tanto pra chegar onde está, pra ter água encanada, acho um desaforo ao meus antepassados desdenhar desse tipo de conforto. Fiquei com o pé um pouco atrás com a história de barracas, mas as fotos do site da Korubo me convenceram de que eu teria todos esses mimos, e as imagens não chegam nem perto do que é a realidade. A barraca dá de dez a zero em muito quarto de hotel por aí…

ônibus korubo

Agora, a melhor surpresa de todas, aquela pela qual eu não esperava e que foi a mais grata, foi o grupo. Eu sabia que eu dividiria o quarto com alguém (do mesmo sexo e, se possível, de idade próxima, de acordo com as informações que a agência me deu) e que teria mais gente no passeio, mas não criei a menor expectativa a respeito. Eu já tinha perdido muito do meu preconceito com viagens em grupo desde o Taglit, então achei legal saber que teria mais gente e imaginei que boa parte das pessoas seria legal, mas não fiquei pensando nisso.

A turma toda subindo as dunas.

A turma toda subindo as dunas.

Nós éramos um grupo grande, 18 pessoas no total, e fomos nos conhecendo aos poucos. Eu peguei o voo para Palmas em Campinas e conheci o Márcio quando chegamos no Tocantins. Conversamos no caminho entre o aeroporto e a pousada e eu gostei dele logo de cara, tanto que fomos dar uma volta pela cidade logo depois de fazermos o check-in e deixar as malas no quarto. Quando voltamos do passeio eu estava cansada e fui pro quarto, mas deixei a porta destrancada pois a moça que seria minha companheira ainda não havia chegado.

Eu e o Márcio nas dunas.

Eu e o Márcio nas dunas.

Lá pela meia noite eu ouço umas batidinhas bem tímidas e a porta se abrindo, uma cabeça aparece e uma vozinha tímida fala:

– Oi… É… eu sou a Talita… Me disseram que o meu quarto era esse aqui. Desculpa ter chegado assim tão tarde…

E assim eu conheci minha irmãzinha jalapense, com quem eu tive o prazer de dividir a barraca e bater altos papos antes de dormir.

Mais de dois anos depois, olha só a gente aqui!

Mais de dois anos depois, olha só a gente aqui!

No dia seguinte, durante o café da manhã fui conhecendo o resto do grupo aos poucos e soube que a maioria já estava super enturmada, desde a noite anterior, quando ficaram bebendo na beira da piscina e acabaram com a cerveja do hotel! Tiveram até que tirar algumas latinhas do frigobar de quartos que não estavam ocupados! Na hora que subimos no ônibus que nos levou até Ponte Alta, onde fizemos a parada pro almoço, eu me sentei perto do Márcio e fiquei observando a bagunça meio de longe. Início de viagem é sempre assim, né? Todo mundo um pouco tímido, um pouco acanhado, tentando se mostrar bem educado e simpático. Fui acompanhando as conversas, rindo um pouco e emendando em alguns papos, mas foi só na hora em que chegamos no cânion da Suçuapara que eu conheci todo mundo praticamente de uma vez só.

O instante fatídico da perda da câmera, devidamente registrado pelo Jorge.

O instante fatídico da perda da câmera, devidamente registrado pelo Jorge.

Por causa de uma câmera perdida todo mundo se juntou e muita gente acabou se conhecendo melhor. Inclusive a Yara e eu, que primeiro me olhou com um olhar torto, porque eu não parava de falar que era ela quem tinha roubado a minha câmera. Então apareceu o Augusto, também lamentando a perda da máquina fotográfica dele, que ficou esquecida num banco qualquer do aeroporto de Brasília, e nós viramos a dupla dos sem registro próprio. Daí veio a Sil e me emprestou uma point-and-shoot pequenininha que ela tinha levado como reserva e eu pude tirar umas fotos minhas.

jalapão

Assim, todo mundo foi se conhecendo aos poucos e praticamente no dia seguinte aquele pudor do início da viagem já tinha completamente desaparecido, no fim da semana parecíamos mais uma excursão de adolescentes indo comemorar o fim do colegial em Porto Seguro. Todo mundo riu de mim e da fome que eu tinha o tempo todo, o Jorge já tinha me dado um saco de Bananinha de Paraibúna na esperança de que eu ficasse quieta e parasse de pedir comida. A Adriana o tempo todo dizendo que estava em desintoxicação e que não ia beber e nem fumar durante a viagem e fazendo só o contrário. No fundo do refeitório havia uma área com artesanato de capim-dourado para venda e a gente podia deixar alguns produtos reservados; a Adriana escolheu um conjunto de pulseiras e deixou uma etiqueta com o nome dela ao lado. No dia seguinte havia mais um bilhetinho ao lado do primeiro: “pulseiras em desintoxicação”, arte do Jorge, que colocou a culpa na Mariana. Ela era a integrante mais novinha do nosso grupo, com 11 ou 12 anos, e uma das mais bacanas da turma.

As “irmãs-sisters”, Beth e Cris, também garantiram a nossa diversão e a Cris ainda foi super gentil ao me emprestar a calça e a bota dela pra caminhada que fizemos sobre a Serra do Espírito Santo. Elas eram engraçadíssimas!

Com a calça e a bota da Cris.

Com a calça e a bota da Cris.

Não teria importância se eu não tivesse tido nenhuma foto guardada dos dias que passei no Jalapão, só as lembranças da turma seriam suficientes para eu nunca me esquecer do cenário e dos dias legais tive. Mas o melhor de tudo é que essa turma não se tornou apenas uma lembrança de viagem bacana, cuja foto está no álbum que você mostra aos amigos e comenta: “Nossa, o pessoal que foi comigo pro Jalapão era tão divertido…” se lembrando de uma coisa boa que ficou longe. A gente continua se falando sempre! Mais de dois anos já se passaram e encontros acontecem com freqüência, a conversa rola solta e quase diariamente num grupo de WhatsApp, tem grupo no Facebook e um carinho enorme entre todos nós que é algo simplesmente encantador!

Ir pro Jalapão foi, com certeza, uma das melhores decisões que já tomei na minha vida!

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2 Comments

  • Reply Eliana September 16, 2015 at 2:14 pm

    E eu que nem fui pro Jalapão e curti a viagem?! O que dizer? Que relato bacana, Angel.

    • Reply angelagolds September 17, 2015 at 7:02 am

      E virou membro honnorário da turma, Eliana! Que bom que gostou do texto! Bjs

    Digaí!