Sobre a vida

Manifesto em prol da viagem que você quer fazer!

October 5, 2015

Tenho visto muitos manifestos por essa internet afora, um dos mais comuns é sobre porque mulheres deveriam viajar sozinhas (ainda meterei minha colher neste angú), mas dessa vez vim falar sobre um tema que  poucas vezes vi abordado por meus colegas de blogagem viajeira. De modo que aproveito este momento para lançar aqui o seguinte manifesto:

o Manifesto em prol da viagem que você quer fazer!

Vamos dar as mãos e gritar bem alto mais uma vez? \o/\o/\o/\o/ (adoro esses bonequinhos dando as mãos)

Ahu Tahai, Ilha de Páscoa.

Ahu Tahai, Ilha de Páscoa.

Manifesto em prol da viagem que você quer fazer!

Viva! Ufa! Todos mais aliviados? Espero que sim.

Os grandes musos inspiradores da minha campanha são os amigos Marcelo e Dé, que escrevem o excelente Faniquito – não bastassem a escrita cativante e os roteiros interessantes, as crases estão sempre nos lugares certos e eu acho, aqui do alto da minha beletrice, que isso passa imensa credibilidade para um blog de viagens. Eles acabaram de voltar de um desses resorts com tudo incluso, onde passaram uma semana de férias, e aqui relatam como o preconceito deles com esse tipo de viagem foi-se embora com a água do mar da Bahia.

Daí me lembrei do meu amigo Theo, que esse ano fez uma conexão em Adis Ababa e voltou me falando o seguinte:

– Sabe, Ângela, o lugar que eu mais tenho vontade de conhecer no mundo é a África! Acabei de fazer uma conexão na Etiópia e finalmente me dei conta de que eu quero muito viajar pela África! Durante um tempo eu ficava com um pouco de vergonha de admitir que eu não queria conhecer os lugares da Ásia pra onde você e mais um monte de pessoas gostam de viajar, mas agora eu não vejo mais problema em assumir isso. Eu quero mesmo é conhecer a África.

Achei sensacional ouvir isso de uma pessoa tão querida! Não é libertador você poder admitir, pra você mesmo inclusive!, que não quer viajar pra algum lugar só porque todo-mundo-vai?

muscat roundabout

Lembro de todos os narizes torcidos que eu recebi quando contava para qualquer pessoa que o destino que fazia meu coraçãozinho bater mais forte era a Coréia do Norte. Cheguei inclusive a ouvir a seguinte asneira: “Mas por que não a Coréia do Sul? Dizem que a vida lá é muito bonita.”

Gente, bonita como? Quais são os critérios que definem uma vida bonita? Quem decide isso? E se eu justamente quiser visitar um lugar, se é que isso existe, onde a vida não é bonita?

Me deixe em paz!

Quem não tem cão, caça com gato. Enquanto não vou pra Coréia do Norte vou no restaurante em Phnom Penh...

Quem não tem cão, caça com gato. Enquanto não vou pra Coréia do Norte vou no restaurante em Phnom Penh…

Acontece que, do mesmo jeito que vejo narizes torcidos e ouço desdém na voz de muita gente quando conto que adoraria conhecer Pyongyang, a mesma reação é causada em gente com mais quilômetros rodados. Às vezes tenho a impressão de que quanto mais algumas pessoas viajam, menos aberta fica a cabeça delas. Explico, parece que vão arraigando um preconceito contra destinos 100% turísticos, como se visitar estes lugares fizesse de você uma pessoa que só consegue digerir roteiros já pré-mastigados. A situação em que pude constatar a que nível essa babaquice chega foi na recepção de um albergue do Cairo; estávamos eu e meu ex-namorado planejando nosso passeio pelas pirâmides no dia seguinte quando uma moça da Bósnia chegou e entrou na nossa conversa, então eu perguntei se ela não gostaria de ir a Giza conosco. A resposta?

– Imagina! Eu lá quero ver as pirâmides?

O tom da voz dela era o mesmo que um adolescente que gosta de rock usaria para recusar um convite para ir a um show do Wesley Safadão. Parecia que eu estava convidando a moça pra ir comigo ao DETRAN recorrer uma multa. Hoje em dia parece que visitar a Torre Eiffel em Paris virou uma coisa de gente sem-cultura-que-não-se-aprofunda-na-cultura-local. Gente, menos. Existe uma razão porque muita gente quer ver a Torre Eiffel, o Coliseu, o Big Ben, são lugares bonitos. Não é à toa que se tornaram tão famosos mundo afora. E mesmo que não fossem tão bonitos ou imponentes, não tem nada de errado querer conhecer lugares pra onde todo-mundo-vai. Sabe um lugar que eu tenho a maior curiosidade de conhecer? E riam da minha cara o quanto quiserem. Caldas Novas – GO! Me digam, você já viram alguém que foi pra lá e não gostou? Eu nunca. Não conheço uma única pessoa que tenha ido pra Caldas Novas e tenha achado, assim, uó. Todo mundo volta de lá feliz da vida.

Eu e minha amiga Adriana em Paris, janeiro de 2007.

Eu e minha amiga Adriana em Paris, janeiro de 2007.

Mas preciso voltar a defender “aqueles lugares diferentes pra onde a Ângela gosta de viajar”. É claro que alguns destinos vão causar mais espanto do que outros, afinal de contas parece haver uma lista de destinos exóticos pré-aprovada pela humanidade. Os “destinos exóticos pero no mucho“. Um exemplo? O Egito. O Egito já foi berço de civilização antiga, o Egito tem monumentos históricos, o Egito tem cultura, o Egito já apareceu em filme de Hollywood, o Egito pode, enfim. Mas vá você dizer que irá pra Omã na mesma viagem… Aparece aquele pontinho de interrogação bem acima da cabeça de quem ouviu e que logo vai usar aquele tom de curiosidade que costuma empregar quando faz perguntas a uma criança:

– Mas nossa, pra Omã? Mas por quê? O que você vai fazer lá?

Gente, perguntar não é o problema. O problema é o jeito.

pirâmide

Pergunte por que a pessoa quer ir para lá, claro, mas não do alto de um pedestal, pergunte dando a chance do seu interlocutor de te convencer a seguir o mesmo roteiro, a te fazer pensar sobre o destino, a instigar a sua curiosidade a respeito de um lugar do mundo que talvez você nem imaginasse que está no mapa. Existe tanto lugar legal por aí…

Quer ir pra Croácia? Vá!

Quer ir para o Vietnã? Vá!

Quer ir pra Caldas Novas? Vá! E me chame, quem sabe vamos juntos.

Quer ir pra Namíbia? Vá!

Pro Senegal? Também!

Não vale perguntar com desdém, estamos combinados?

Então, minha gente, é isso, deixemos de ser sommelier de viagens alheias. Que cada um vá pra onde quiser, com quem quiser e quando quiser!

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