Mergulho, Na Gringa, Sobre a vida

Cenas de um casamento embaixo d’água

February 11, 2016

Já contei no post da Restrospectiva que em fevereiro do ano passado meus cunhados se casaram. Eles são instrutores de mergulho e trabalhavam na mesma operadora que o Josh e eu, mas  mas como cuidavam do terceiro escritório da operadora moravam em um hotel afastado do centrinho de Phi Phi. Como a cerimônia e a festa aconteceriam na praia do resort, a Karen queria muito mergulhar para fazer uma sessão de fotos no fundo do mar vestida de noiva. Seria uma espécie de casamento debaixo d’água.

casamento praia

Bebida e mergulho não combinam, então é claro que não deu certo e tivemos que adiar o plano.

casamento praia

Sem chance dessa gente nada sóbria ir pro fundo do mar

Aproveitamos um dia em que o barco da operadora estivesse praticamente vazio e fizemos toda a produção a bordo do Reef Ranger.

Uma penteadeira improvisada.

Uma penteadeira improvisada.

casamento embaixo d'água

Logística

A parte mais complicada da sessão de fotos era a logística de levar o equipamento e manter o glamour de uma sessão de fotos de casamento ao mesmo tempo. É quase impossível conciliar os dois. Observe:

Elegante #sqn

Elegante #sqn

 Tudo isso que eu estou usando é necessário para a minha segurança e bem estar debaixo d’água. Mas como respirar e ficar bonita ao mesmo tempo estando no fundo do mar?

Lastro: Resolvemos a situação colocando o lastro da Karen por baixo do vestido e o do Chris no cinto que ele estava usando.

lastro

Ar: Questão de sobrevivência e prioridade número um. Mas e a feiura que é um regulador na boca? Como evitar? Amarramos um tanque com um regulador a uma corda para que ficasse na altura dos noivos. A idéia era respirar um pouco, largar o regulador, bater a foto e respirar novamente. Mas e como isso funciona quando aplicamos a regra número um do mergulho? “Nunca segure a respiração”. Resolvemos o problema mantendo uma profundidade de uns 4 metros, o que não é um despropósito. Quem faz apinéia chega a esta profundidade e se mantém por alguns segundos debaixo d’água sem riscos. Essa profundidade garantiria a segurança dos pulmões de todo mundo.

Jade, a fotógrafa, e eu estávamos com nossos equipamentos completos. Assim poderíamos estar à disposição do Chris e da Karen caso eles precisassem de ar a qualquer momento.

Máscaras: Junto com o regulador, as máscaras de mergulho são capazes de embarangar até a Gisele Bündchen. Como assistente da fotógrafa fiquei responsável por segurar as máscaras dos cunhados durante os cliques.

Nadadeiras: Essenciais para uma boa movimentação debaixo d’água, mas longe de serem os sapatos ideias para roupas de casamento. Foram cortadas das fotos dependendo do ângulo ou simplesmente passadas para mim e depois devolvidas a eles.

Quando tudo isso estava muito bem combinado com nós quatro tiramos uma última foto antes de pularmos no mar.

Uma última foto antes de todo mundo cair na água

Uma última foto antes de todo mundo cair na água

TCHIBUM!

Dá pra ver como ficou o tanque reserva dos noivos? Amarrado a uma corda e sempre próximo deles.

Dá pra ver como ficou o tanque reserva dos noivos? Amarrado a uma corda e sempre próximo deles.

casamento debaixo d'água

O ponto de mergulho onde as fotos foram feitas, Hin Bida, é famoso pelos tubarões leopardo (Leopard Shark) que nadam por ali. Como tínhamos de contar com a boa vontade da natureza sabíamos que havia a chance de não aparecer ninguém, mas estávamos bem esperançosos. E não é que logo ouvimos o Chris tentando chamar nossa atenção e apontando freneticamente em direção a esse bonitão?

leopard shark

Ele veio nadando todo tranquilo, sem a menor idéia do furor e alegria que estava causando. Veio vindo todo despreocupado e passou BEM NA FRENTE dos noivos!

casamento debaixo d'água

Dá pra acreditar na sorte deles? Em como o mar foi generoso ao dar este presente de casamento?

Dá pra acreditar na sorte deles? Em como o mar foi generoso ao dar este presente de casamento?

Depois disso nos concentramos em fotografar os noivos, já que não era possível garantir um clique melhor do que estes.

Foto tirada pela Jade

Foto tirada pela Jade

Foto tirada pela Jade

Foto tirada pela Jade

Algumas considerações:

Uma sessão de fotos como esta faz a alegria de qualquer casal de mergulhadores! Não deve ser difícil conseguir uma parecida em qualquer região onde a indústria do mergulho seja forte. Nós nunca tínhamos feito algo parecido na operadora onde trabalhei em Phi Phi, mas é apenas uma questão de conversar e acertar os detalhes. O mais importante é que os noivos sejam mergulhadores certificados E experientes. Não recomendo para quem nunca mergulhou ou tem pouca experiência, aliás imagino que nenhuma operadora séria ofereceria este tipo de serviço para clientes não credenciados.

Não saberia dizer o valor deste tipo de serviço, pois nós fizemos as fotos como um presente para os meus cunhados.

*Todas as fotos, exceto as fotos em que apareço e as sinalizadas, foram tiradas por mim.

Na Gringa, Pogramas

Tour astronômico no Atacama; programa imperdível do deserto

January 11, 2016

Quando eu e a Yara resolvemos incluir o Atacama no nosso roteiro que seria exclusivamente boliviano, o primeiro cenário que me veio à cabeça foi os geisers del Tatio e logo em seguida o Vale da Lua. Estes são, provavelmente, os passeios que estão presentes nos roteiros de 9 entre 10 turistas que se dispõem a conhecer o deserto chileno – digo 9 entre 10 porque sempre há quem não queira conhecer os pontos turísticos mais famosos de algum destino. Eu só não imaginava que estes lugares seriam desbancados por algo que está, literalmente, muito acima deles: o céu do deserto do Atacama, o mais limpo do mundo.

Parece papel-de-parede do Windows, mas é só o céu do Atacama mesmo.

Parece papel-de-parede do Windows, mas é só o céu do Atacama mesmo.

Eu só fui me lembrar deste fato, que estava devidamente armazenado em algum canto obscuro da minha memória, na hora em que cheguei a San Pedro e vi um grande cartaz anunciando “Tour astronômico no Atacama” na frente de uma agência de turismo. Eu e a Yara nos olhamos e falamos quase ao mesmo tempo: “Parece bem legal, hein? Vamos? Dizem que o céu daqui é o mais limpo do mundo, tem até observatório da NASA.” Entramos na agência e pedimos mais informações sobre o passeio; o tour seria conduzido por um professor da Universidade de San Pedro, haveria dois telescópios para a observação, uma pausinha para tomar um pouquinho de vinho e pisco sour acompanhados de queijinhos e as explicações dadas teriam base na visão de mundo dos antigos gregos, mitologia atacamenha e também da astronomia contemporânea. Marcamos o passeio para aquela noite mesmo e às 21:00 pegamos o transporte que iria levar nosso grupo todo para o campo onde nos esperavam o professor e o telescópio.

atacama sky

Nosso grupo tinha gente de todos os cantos do mundo e por causa disso o professor contou com a ajuda de uma tradutora, pois o tour é guiado em espanhol. Ele começou nos explicando a razão do céu do Atacama ser tão limpo: é o deserto mais seco do mundo, não há sequer registro de chuvas em algumas partes dele, portanto há muito poucas nuvens. Em seguida nos disse que há algumas estrelas visíveis apenas no hemisfério norte e outras apenas no hemisfério sul, mas que aquela região era um bom meio termo para ver estrelas de ambos hemisférios. Além disso, contou que as visões são diferentes devido à geografia; o norte olha para fora da galáxia e o sul para dentro, o que faz com que os conceitos de astronomia variassem de um povo para outro antigamente, além de questões culturais, é claro. E também ficamos sabendo que o céu é o mesmo há 5000 anos(!), é o mesmo que os fenícios usavam para navegar e os incas para seus calendários, mas que está prestes a mudar.

atacama

À medida em que ele ia nos contando todas estas coisas, ia posicionando um dos telescópios para determinada estrela ou apontando alguma constelação com um super laser verde. Ficamos sabendo que as estrelas vão mudando de cor à medida que vão envelhecendo: estrelas bebês são brancas, jovens são azuis, maduras são amarelas e velhas são vermelhas – nosso sol, amarelo, é uma estrela madura – e quando morrem viram supernovas e depois nebulosas.

atacama

Fizemos nossa pequena pausa para os bons drink e eu fiz uma tentativa frustrada de fotografar o céu com a minha câmera compacta; sem poder ajustar a abertura e a velocidade, saiu tudo um belo breu. Para esse tipo de foto sair boa é necessária uma câmera DSLR ou uma compacta com mais recursos, além de um tripé ou superfície bastante estável, pois o obturador ficará aberto por bastante tempo. Quando estive em Omã, em 2008, tirei esta foto no deserto de Wahiba:

Foi tirada com 4.0 de abertura (a menor que a lente permitia) e 25 segs de exposição, com ISO 3200 e a lente em 18mm.

Foi tirada com 4.0 de abertura (a menor que a lente permitia) e 25 segs de exposição, com ISO 3200 e a lente em 18mm.

Naquela noite também não pudemos contar com a câmera da Yara, que estava sem bateria, o que gerou uma grande tristeza e frustração em ambas. Fiquei de passar meu e-mail para uma menina bem simpática que também estava no nosso grupo mas acabei não conseguindo, chegamos bem tarde em San Pedro e o grupo se dispersou rapidamente depois de descermos do ônibus. Ficamos a ver navios até que descobrimos uma outra agência que organizava um passeio parecido, a Space, e se dedica exclusivamente a este tipo de turismo. Eles oferecem os tours em espanhol e inglês, em diferentes horários e com durações diferentes. Nós não deixamos a oportunidade de conseguir nossas fotos passar e nos inscrevemos no passeio da Space, mas dessa vez optamos pelo tour mais curto, que não inclui o bate papo com o astrônomo no fim.

atacama

Foi muito legal poder fazer os dois passeios, apesar de ambos terem a mesma proposta a execução é diferente e eu diria que ambos se complementam. O tour do professor é bem mais informal, as explicações têm um tom de conversa, é como se estivéssemos olhando as estrelas com um amigo que entende muito do assunto e tem um telescópio super potente e eu adorei o clima. Já o tour da Space é muito mais organizado, com cara de negócio sério, e você percebe isso ao ver os dez SUPER telescópios que eles têm presos ao chão do pátio onde as explicações são dadas. Nossa guia deu praticamente as mesmas explicações que tivemos no tour do professor, mas com menos detalhes, bem menos detalhes na verdade, e mais rapidamente. Como na Space há um grupo começando logo após o outro, o tempo que temos em cada telescópio é contado. No fim do tour, todos temos direito a uma bebida quente (chocolate ou chá) antes de irmos embora.

atacama

Entre um telescópio e outro, a Yara teve ajuda da Alejandra (nossa guia da Space) para conseguir as fotos pro post. Ela foi super gentil, fez todos os ajustes na câmera, indicou as melhores posições e também mostrou quais seriam os lugares mais estáveis para apoiar a câmera.

Serviço:

Os passeios custam, em média, 20.000,00 pesos chilenos (cerca de R$110,00 em janeiro de 2016) e têm perto de uma hora e meia de duração.

Ambos tours são a céu aberto, de noite, no deserto, a uma altitude elevada e isso significa um SUPER frio. Eu sou friorenta pra caramba e me vesti em muitas camadas: meia calça, calça jeans, camiseta, casaco de lã de alpaca, casaco térmico, poncho de alpaca, luvas e gorro. Não passei frio, mas andei com a graciosidade do monstro de marshmallow dos Caça-Fantasmas.

Podendo, vale a pena fazer os dois. O escritório da Space fica na rua Caracoles, a principal de San Pedro, e a agência através da qual contratamos o tour do professor fica na mesma rua, bem em frente ao escritório da Space. Ela é a primeira loja de uma galeriazinha onde alugam prancha pra sandboard e também funciona uma lavanderia, na fachada há um grande cartaz anunciando o tour astronômico no Atacama.

Na Gringa, Pogramas

Como pegar o Hogwarts Express

January 6, 2016

Engraçado como a Inglaterra nunca figurou na “minha lista de lugares que eu morria de vontade de conhecer” mas a Escócia sim. Por algum motivo eu sempre quis muito visitar a terra do uísque, e já que eu tinha ido parar no Reino Unido, não ia deixar a chance passar. Tanto quis que acabamos planejando uma viagem rápida pelas Highlands com meus cunhados para minha última semana na terra da rainha.

Escócia

Minha cunhada é uma das pessoas mais empolgadas que eu conheço e está sempre pensando em atividades, programando passeios. Assim que decidimos ir pra Escócia ela já sacou o celular do bolso e se pôs a buscar coisas interessantes para fazermos. Meu único grande desejo era ver o lago Ness, também gostaria de subir o Ben Nevis se desse tempo e o resto da galera se animasse, fora isso não tinha grandes desejos pois sabia que com a Karen cuidando do planejamento estávamos em boas mãos. No fim-de-semana antes da viagem eles chegaram a Newcastle e a Karen nos contou sobre as possibilidades, uma delas era pegar uma maria-fumaça em Fort William e ir até o litoral. Achei a idéia bem bacana mas o preço um pouco caro. Assim que disse que ia pensar sobre o assunto ela tirou da manga um argumento imbatível: é a mesma locomotiva usada nos filmes do Harry Potter, passa até no mesmo viaduto que aparece no segundo filme. Falei pra reservar os quatro lugares.

Harry Potter é um argumento que sempre funciona comigo. Ainda mais depois que eu já tinha empurrado o carrinho em King’s Cross, agora era só correr pro abraço e pegar o Hogwarts Express.

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Glenfinnan Viaduct, também conhecido como os arcos do Harry Potter

Glenfinnan Viaduct, também conhecido como os arcos do Harry Potter

Por alguma razão não era possível fazer a reserva para quatro pessoas pelo site da maria-fumaça, que no mundo dos trouxas se chama The Jacobite, mas dava para fazer quatro reservas para uma pessoa. Na dúvida ligamos na segunda-feira logo cedo, de dentro do carro e já a caminho da Escócia, e conseguimos marcar o passeio para nós quatro para o último dia da viagem. Curiosa e felizmente também seria o último dia de funcionamento da locomotiva em 2015, a ferrovia fica fechada e os trens não operam durante o inverno. Já imaginou se a gente tivesse deixado pra um dia mais tarde e perdesse o rolê por causa disso?

Hogwarts express

Na quinta-feira cedinho fomos de carro até a estação de Fort William, o trem sai às 10:15 e é claro que a gente queria fazer tudo com calma e tirar umas fotos na frente da locomotiva – gente, é o Hogwarts Express!!! (não há exclamações suficientes, mas meu senso de ridículo não me permite mais de três) Bem na hora em que a nossa vez na fila chegou começou a chover, mas nada que nos impedisse de posar sorridentemente ao lado de um típico escocês de dreds e kilt!

The Jacobite

Nossos lugares eram os últimos do último vagão, o que proporcionou uma vista bem bacana na hora em que o trem passou sobre o viaduto. Durante a viagem fomos apreciando a paisagem, tirando fotos e pensando no que fazer quando chegássemos a Mallaig, a pequena cidade portuária onde faríamos uma parada de cerca de duas horas. Não dava tempo para muito mais do que almoçar, mas como o clima não estava nada convidativo para um passeio do lado de fora (se praia no norte da Inglaterra já não é quente no verão, imaginem a temperatura de uma praia no norte da Escócia durante o outono!) não era má idéia passar a maior parte do tempo dentro de um restaurante quentinho. Nos entregaram um pequeno guia dos restaurantes da cidade e fomos conversando a respeito de onde comeríamos. Karen e eu resolvemos que seria no Tea Garden, que tinha a descrição mais simpática dentre todas as opções e cujo cardápio incluía um pint* de camarões.

O tal do pint é o copo no qual os camarões vêm.

O tal do pint é o copo no qual os camarões vêm.

Além do pint de camarões fomos de fish and chips e quando todo mundo já estava satisfeito demos uma voltinha pelo porto, de onde sai a balsa para a ilha de Skye.

Mallaig

Logo em seguida já era hora de voltarmos para o trem, dessa vez nos sentamos todos separados, o que não foi problema algum pois todo mundo aproveitou para tirar um cochilinho.

Para pegar o Hogwarts Express:

Antes de passar pelo portal da Plataforma 9 3/4 na estação King’s Cross em Londres, reserve seu bilhete no site do Jacobite (que é como os trouxas o chamam), assim você já chega com a passagem em mãos.

Chegue em Fort William cerca de meia hora antes do horário marcado para a partida, assim você pode facilmente encontrar um lugar para estacionar o carro perto da estação. Vale lembrar que é proibido, e de mau tom, usar as vagas do estacionamento do Morrissons, o supermercado que fica ao lado. Elas são gratuitas, mas exclusivas para os clientes.

O vagão que aparece no filme, que tem as cabines separadinhas, é o único de primeira classe do trem e por isso mesmo mais caro do que o resto. Se quiser a experiência completa, vai ter que desembolsar umas libras a mais. Os vagões normais têm aqueles banquinhos para quatro pessoas e com uma mesa no meio, eu fui nesses e achei que valeu mais do que pagar a diferença pra primeira classe, o bacana mesmo é curtir a paisagem.

O vagão da segunda classe.

O vagão da segunda classe.

*Um pint, para quem não está familiarizado com a medida, equivale a cerca de 568ml e é uma medida padrão muito comum no Reino Unido. Nos bares geralmente é o tamanho do copo no qual servem a cerveja, a versão brasileira do pint, como medida padrão, seria a tulipa de chopp,

Na Gringa, Pogramas

Ir à praia na Inglaterra. É possível, eu juro!

January 4, 2016

A gente que nasceu e foi criado no Brasil associa praia a certas coisas.

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Praia no Brasil: pastel, céu azul e areia fofa.

– raspadinha feito com gelo de procedência duvidosa;

– queijinho de coalho;

– caipirinha;

– vendedor de canga, de chapéu, de biquíni, de pulseirinha de miçanga, de brinco de côco e do que mais você imaginar;

– carrinhos de picolé da Kibon e da Yopa (até hoje não superei o fato de que a Yopa virou Nestlé…);

– areia fofinha;

– água quente…

concha

Ir à praia e não entrar no mar é algo que jamais passaria na cabeça de um brasileiro. Pelo menos não na minha cabecinha de paulista, já que talvez do pessoal do Sul não pense assim. A gente só não entra no mar quando vai pra Ubatuba e dá o azar de pegar uma semana inteira de chuva, no inverno, aí dá pra ficar em casa e assistir um filminho no Netflix, jogar um baralho ou fazer um campeonato de mímica. Fora isso, minha gente, praia é sinônimo de castelo de areia, calorão, suor e uns caldos (*caldo é um “campineirismo” meu? É aquele momento quando uma onda forte vem e te derruba, tirando o biquíni do lugar e levando sua dignidade junto com ela, quando volta puxando).

Praia no Brasil: sol, céu azul, mar verde e caipirinha.

Praia no Brasil: sol, céu azul, mar verde e caipirinha.

Sempre achei engraçado ver paisagens de litoral em lugares de clima bem frio, aquele mar bem cinza com ondas bem fortes batendo contra rochedos, ou aquela praia escuuuura sem um vendedor de milho verde num raio de 20Km e um povo todo encapotado. Gente.de.gorro.na.praia. Pra mim, isso era uma coisa tão louca quanto seria uma pista de esqui em Fortaleza, simplesmente não combinava.

Seaham, uma praia bem perto de Newcastle.

Seaham, uma praia bem perto de Newcastle.

Aí o Josh me contou que Newcastle é bem pertinho da praia e que a gente poderia ir ao litoral enquanto eu estivesse aqui. Aí eu fui conversar com meu amigo José Eduardo, que morou uns anos na Inglaterra quando criança, e ele me contou da vez que foi à praia com sua família durante esse tempo. Depois de cerca de um ano morando em Londres, amargurando aquele clima cinza, frio e chuviscante, o pai dele chegou em casa e anunciou que passariam o próximo fim-de-semana na praia! Paulista como eu, o pequeno Zé já começou a sonhar com a areia fofinha, a água quentinha e o céu azul do Guarujá. O que o pobre não imaginava é que ele encontraria justamente o contrário do que havia imaginado. Eu só consigo imaginar a decepção dele na hora em que botou os pés na areia meio dura, viu aquele mar cinza e o céu cinza acompanhado de sua fiel garoa.

Duridge bay

Duridge bay

No primeiro fim-de-semana que passei na Inglaterra meus sogros quiseram aproveitar o verão (verão cuja temperatura máxima gira em torno dos 18ºC, que fique bem claro) e me levar pra praia junto com os cunhados. Iríamos para Bamburgh, onde há um castelo lindíssimo, e almoçaríamos os famosos fish and chips na costa, rolou até a idéia de mergulharmos no Mar do Norte mas o plano foi abortado quando soubemos o preço (cerca de £70 por cabeça). Josh e meus cunhados estavam animados pra entrar no mar, eu não me entusiasmei muito mas botei o biquíni na mala por recomendação da sogra – caso a vontade aparecesse, eu não deixaria de entrar na água por falta de roupa adequada.

duridge bay

Assim que paramos o carro na entrada da praia, que tinha areia branca e fofa por sinal, uma família vinha vindo e nos disse que havia um bebê foca na areia. Uma.foca.na.areia. Gente, vocês têm noção de que focas vivem no Polo Norte? Do frio que uma foca suporta? Uma coisa era certa, se uma foca estava de boa nadando naquele mar, aquela água era fria demais pra mim. Mas saímos todos correndo em direção ao mar e vimos a foquinha correndo pra água, a coisa mais fofa, e logo em seguida ficamos seguindo sua cabecinha que sumia e reaparecia com o movimento das ondas.

Dá pra ver a cabecinha da foca?

Dá pra ver a cabecinha da foca?

Nisso os três corajosos se aventuraram a vestir suas camisetas de neoprene e entrar no mar, eu fiquei de longe, só olhando e fotografando. Pra não dizer que não tive contato algum com as águas do Mar do Norte, criei coragem o suficiente pra molhar os pés. É claro que ninguém aguentou muito tempo e logo os três voltaram para se secar.

durige bay

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Ir à praia na Inglaterra é possível e talvez na Cornualha, que recebe influência da Corrente do Golfo, a experiência de entrar no mar seja até bem agradável. Pelo que Josh me falou, há boas ondas por lá e bastante gente passa o verão no litoral da Cornualha para surfar e aproveitar o clima mais quente. A questão é saber a qual praia ir e escolher um dia que o tempo esteja bonito, o que não é tão raro durante os meses do verão. A precaução a se tomar é que, quanto mais ao norte, mais frio estará e um casaquinho será companhia bem vinda. Caso entrar na água esteja fora de cogitação, passar um tempo na areia com um bom livro e fazendo um piquenique me parecem ótimas opções, se você der sorte é capaz até de encontrar um bebê foca!

durige bay

Comer os famosos fish and chips à beira mar também é um programa tipicamente inglês e bem bacana, o restaurante onde almoçamos estava abarrotado. Gastar um dinheirinho em um arcade (um lugar bem parecido com o nosso fliperama) jogando air hockey ou apostando nas caça-níqueis é outro programa bem inglês e típico do litoral.

Os sogros jogando air-hockey.

Os sogros jogando air-hockey.

Braseel, Sobre a vida

Retrospectiva 2015

January 1, 2016

Lembram daquela pessoa procrastinadora do começo do ano? Aquela que escreveu a Retrospectiva 2014 já na segunda semana de janeiro? Ela continua a mesma.

Esses dias tenho me pegado pensando sobre o que escrever e percebi que não é de falta de assunto que sofro, muito pelo contrário. Talvez seja de um pouco de falta de foco, motivação ou qualquer outra palavra que o mundo corporativo tenha arranjado pra substituir a boa e velha “vontade”. É, acho que tenho tido pouca vontade. Mas parar para pensar sobre o que eu andei fazendo durante esse ano de 2015 foi um bom exercício, um que me deu um bom gás para voltar a escrever por aqui. Enquanto as coisas não aparecem em maiores detalhes, deixo uma prévia do que vai aparecer mais esmiuçadamente em breve.

Janeiro

Ângela Goldstein

Acho que dezembro de 2014 e janeiro de 2015 foram os meses de mais trabalho que já tive na vida. A alta temporada em Phi Phi não é brincadeira e os frutos disso foram tão bons que eu consegui ganhar dinheiro suficiente para comprar um colete novo quando meu velho arriou, pagar todas as contas, planejar uma viagem rápida para a Malásia e ainda sobrou!

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Foi também o mês em que conheci minha sogra. Meus cunhados, que trabalhavam conosco em Phi Phi, se casaram no começo de fevereiro e grande parte da família veio da Inglaterra para o grande dia. A primeira a chegar foi a sogrona e esse foi um ótimo começo. É claro que eu fiquei muito nervosa na hora, mas ela é tão legal que logo fiquei mais tranquila.

Fevereiro

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Minha primeira viagem internacional do ano; Josh e eu precisávamos renovar nossa permanência na Tailândia e para isso é necessário sair do país. Passamos três dias em Kuala Lumpur, a capital da Malásia.

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Também teve o casamento dos cunhados e a emoção de conhecer a família INTEIRA do namorado (pais, irmãos, cunhados, tios e até a sobrinha que ainda estava na barriga!) de uma vez só. Para meu grande alívio, todo mundo era muito gente fina.

Março

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Foi outro mês de bastante trabalho e o fruto disso, além do aluguel pago em dia, foi a compra da minha TERCEIRA câmera à prova d’água, uma Olympus TG-3. A bichinha foi meu desejo de consumo durante muitos meses e com ela vieram as melhores fotos sub que tirei em Phi Phi.

Ângela Goldstein

Teve uma rápida viagem pra Krabi com uns amigos de Phi Phi e sofri a massagem mais doída da minha vida.

Meu último mês na Tailândia foi sensacional, a parte dura foi me despedir do Josh sem saber quando nos veríamos novamente.

Abril

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Foi o mês mais tranquilo do ano. Retomei algumas aulas particulares no Brasil, fiz traduções, arrumei os armários e me livrei de muita coisa que não usava mais e ficava atravancando espaço. É bom ver energia fluir assim.

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Revi família e amigos, fui pra São Paulo, apertei os cachorros, me fartei de assistir Netflix, retomei a costura  e comemorei Pêssach com amigos em São Paulo. Também aproveitei pra reencontrar alguns dos quilos que perdi na Tailândia ao me fartar de comer tudo aquilo que estava morrendo de saudades.

Maio

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Foi o momento do ano em que me dei conta de que um ciclo da minha vida se fechou e me senti bastante tranquila com isso. Durante todo o mês de maio dei aulas em uma escola de línguas aqui em Campinas e no fim do período tive a certeza de que, por mais difícil que seja dizer “desta água não beberei”, a sala de aulas não é mais o meu lugar. Continuo com algumas aulas particulares, mas levando tudo de uma maneira bem mais tranquila, sem provas pra corrigir, fechamento de média em fim de semestre e quetais.

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Rapidamente revi amigos queridos, de quem fui madrinha de casamento, no batizado do filhinho deles.

Teve mais São Paulo, teve dia das mães e teve mais pão de queijo.

Foi o mês em que comprei minha passagem para Inglaterra e finalmente tive uma data certa para rever o Josh!

Junho

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Rolou um incrível risoto de estrogonofe com os amigos gourmets de São Paulo.

Pude matar minha vontade de festa junina indo a várias e causando uma senhora inveja no namorado. “Mais uma festa junina, Ângela? Eu também quero ir!”

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Revi parte dos amigos do Jalapão durante uma caminhada linda pela Serra do Japi. Eu não canso de me impressionar com o tanto de lugares bonitos e tão próximos continuarem sempre tão desconhecidos.

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Participei, junto com a vizinhamiga Ana do lançamento do guia “Cambuí walking tour”, uma iniciativa dela e de outros comerciantes do bairro para incentivar passeios a pé. Uma bela iniciativa, diga-se de passagem.

Julho

 So Neptune looked at me and said: Let's take a selfie? Well, I just couldn't refuse. #uwphoto #underwater #mergulho #dive #scuba #scubadive #naonde #livetoscuba #scubadiverslife #PADI

Finalmente, depois de três meses em terra firme, voltei a mergulhar. Foi só um mergulho rapidinho, daqueles que dá mais vontade do que a mata, mas valeu conhecer as águas de Paraty um pouco mais a fundo – sim, todos os mergulhadores fazem piadinhas infames.

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Aliás, passear em Paraty é sempre bom e na companhia de uma amiga querida conheci o Saco do Mamanguá, onde fica localizado o único fiorde brasileiro.

Tive minha primeira experiência desagradável num posto de fronteira; o guarda que me atendeu em Heathrow me deu uma bela canseira na fila da imigração. Mas valeu pra ver o namorado!

Agosto

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Meu primeiro mês inteiro na Inglaterra, foi sensacional! Meus sogros são muito legais e me levaram passear em mil lugares, me apresentaram a novos sabores e eu descobri um novo vício televisivo: The Great British Bake-off. É um programa de desafios de padaria de dar muita água na boca!

Shakespeare's Globe

Conheci Londres! Uma cidade da qual já tinha ouvido falar mil vezes e nunca tinha tido a oportunidade de visitar. Adorei e disse pro Josh que queria morar lá, mas ele disse que nem morto. Fomos ao Shakespeare’s Globe e eu me diverti empurrando o carrinho do Harry na estação King’s Cross

Conheci minha pequena sobrinha, a linda Rose.

Setembro

Castelo de Alnwick

Achei que não seria um mês nada extraordinário, já que fiquei o tempo todo em Newcastle, mas foi em setembro que eu aprendi a voar durante uma visita ao Castelo de Alnwick.

Esses quadradinhos, junto com muitos outros, virou uma colcha de crochê.

Esses quadradinhos, junto com muitos outros, virou uma colcha de crochê.

Fiz um monte de crochê com a minha sogra, fiz um monte de coisas gostosas na cozinha para a família toda assistir ao The Great British Bake-Off, fiz um curso de costura e recebi a notícia de que eu fotografei dois novos Leopard Sharks em Phi Phi! Na Tailândia há um programa chamado Spot the Leopard Shark para controlar a população de tubarões leopardo no país, cada vez que você fotografar um pode mandar a imagem para eles arquivarem, se for um novo tubarão (um que ainda não tenha sido fotografado) você pode dar um nome pra ele.

Outubro

Josh, muito bem vestido, para tomar o chá das cinco.

Josh, muito bem vestido, para tomar o chá das cinco.

Meu último mês de Inglaterra foi em ritmo de gincana do Xou da Xuxa. Passei o dia do meu aniversário com o namorado em Manchester e de noite fomos com os cunhados para a casa da irmã da Karen, que mora na vilazinha mais linda do mundo. No dia seguinte tomamos meu primeiro afternoon tea em Bakewell, numa casa de chá chamada The Lavender Tea Room.

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Na semana seguinte passei três dias em Bath, minha primeira viagem como blogueira!, a convite do departamento de turismo da cidade. Fiquei encantada com o lugar e disse pro Josh que a gente poderia morar lá.

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Uns dias depois fomos para a Escócia com os cunhados e ficamos uma semana nas Highlands. Infelizmente não vimos o monstro no dia em que estivemos no Lago Ness, mas pegamos o Hogwarts Express.

Dia 26 foi a hora de dar tchau pro namorado e família e pegar o caminho da roça de volta pra Campinas.

Novembro

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Passamos alguns dias em La Paz, pegamos o busão rumo a Tupiza, conhecemos o salar de Uyuni e cruzamos a fronteira para o Chile. Conhecemos o deserto do Atacama, flutuamos na Laguna Cejar e comemos muita quinoa. A volta, cinco estrelas, teve direito a uma noite em Santiago com jantar no maravilhoso Aqui está Coco e muita risada.

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A chegada no Brasil, depois da maratona de viagens, foi acompanhada de uma tremenda gripe que passei pra todo mundo.

Dezembro

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Foi um mês bem tranquilo, assim como abril. Dei algumas aulas, escrevi um pouco no blog, não cozinhei quase nada, e bati muita perna com a amiga Ana.

Comecei a planejar o ano que vem, o primeiro que será 100% fora da sala de aula, pensar nas viagens futuras (já tem duas marcadas pra janeirão!) e esperar o namorado.

Apesar dos altos e baixos, 2015 teve um saldo muito mais positivo e se esse ano que começa hoje for, pelo menos, parecido já sei que estou no lucro!

Os amigos da RBBV (Rede Brasileira de Blogueiros de Viagem) também fizeram suas retrospectivas e vocês podem conferi-las aqui:

Aprendiz de Viajante;

Trippolis;

Nat’s Corner;

Trilha Marupiara;

Doiapoque a Nova Iorque;

Comendo chucrute e salsicha;

Passeiorama;

Tá indo pra onde?;

Four trip;

Férias Now;

Carioca travelando;

Marola com carambola;

Compartilhe viagens;

Casal Califórnia;

Sr. & Sra. Lao;

Viagens cinematográficas;

Cris pelo mundo.

Sobre a vida

As seis pessoas mais desagradáveis que já encontrei viajando

December 15, 2015

Uma das melhores pares de viajar é conhecer pessoas novas, ouso dizer que este pensamento seja uma unanimidade entre a comunidade viajante. É muito bacana conhecer novas culturas, descobrir o que levou pessoas tão diferentes a um mesmo lugar, gente de lados opostos do planeta, ou até mesmo gente da sua cidade que você só foi conhecer fora dela.

Foi assim que eu conheci o Josh, minhas amigas Yara e Talita e um simpático tcheco que jantou comigo na Khao San Road assim que me mudei pra Tailândia em 2014. Mas nem tudo são flores, nem todo mundo que viaja tem a mente super aberta e um fato incontestável sobre a humanidade é que há muita gente chata no mundo, mesmo. Então, hoje apresento a vocês uma galeria curada durante meus anos de estrada. Com vocês, as seis pessoas mais desagradáveis que já encontrei viajando!

Tupiza

1. O espanhol mal-humorado do hotel de Tupiza

Durante o café-da-manhã, conversava com um moço que estava sentado à mesma mesa. Ele me contava sobre a viagem que estava fazendo e então disse que tinha passado alguns dias na capital chilena, um lugar do qual eu gosto muito.

– Santiago é uma cidade linda, né?

– Não, não gostei. Não gosto de cidades grandes.

#comolidar? Simplesmente voltei minha atenção ao chá de coca à minha frente.

Tiwanaku

2. A italiana do almoço de Tiwanaku

Depois de visitarmos as ruínas de Tiwanaku, o grupo todo foi almoçar num restaurante próximo. À minha frente estavam sentadas duas italianas e uma delas conversava mais comigo, contava que estavam na Bolívia há pouco tempo e que ficariam no país por cerca de um ano. Então eu disse que tinha tido uma surpresa muito boa com a culinária boliviana, que não sabia muito bem o que esperar quando cheguei mas que tinha achado a comida local muito saborosa e nutritiva. Nesse momento, a italiana que até então estava muda se dignou a falar:

– Você acha isso porque nunca esteve na Itália.

– Olha, na verdade eu já estive na Itália e realmente a comida de vocês é muito boa, mas isso não muda em nada a minha opinião sobre a comida boliviana.

snappers

3. A esnobe de Phi Phi

Numa noite de trabalho na escola de mergulho em Phi Phi, entra uma moça e me pergunta sobre nossos programas de mergulho. Começo o procedimento padrão perguntando se ela já tem a certificação e depois de receber a resposta afirmativa explico como a operadora trabalha. A fofa então me diz:

– Mas eu não quero ficar indo pra pontinho merda aos quais vocês levam mergulhadores iniciantes. É horrível mergulhar com gente inexperiente, que fica levantando sedimento o tempo todo e turva a água.

Perguntei então, a esta entidade superior do mergulho, quantas saídas ela já tinha feito. Cerca de duas por ano há quatro anos. Olha que eu sou formada em Letras, uma negação em matemática, mas até eu consegui fazer essa conta bem rapidinho e chegar ao resultado de 8. OITO. Oito mergulhos tinha a fofa, espaçados em quatro anos.

A dúvida que me restou foi:  essa possível reencarnação de Jacques Cousteau, quando vai a Paris, visita a mesma Torre Eiffel que todos os turistas de excursão também vêem ou ela sabe de uma que é exclusiva para viajantes mais experientes?

#comolidar? Entreguei a brochura da operadora e falei pra voltar no dia seguinte pra saber se tinha vaga.

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4. Os dinamarqueses eternamente insatisfeitos

Meus primeiros clientes em Phi Phi foram um casal de dinamarqueses. Como boa divemaster estreante, estava empolgadíssima pra mostrar todas as coisas muito maneiras pra eles e ainda tivemos a sorte de vermos uma linda e enorme tartaruga nadando bem na nossa frente, toda linda, toda exibida. Quando subimos pro barco perguntei se eles tinham gostado do mergulho e disse:

– Nossa! E que linda aquela tartaruga que nós vimos, hein?

– Nas Filipinas nós vimos cerca de 20 tartarugas em cada mergulho.

#comolidar? Respirar fundo e ver se algum colega tá precisando de ajuda.

Hanoi

5. A boa alma do Canadá

Tomava um chazinho num café de Hanói quando uma moça chegou e me perguntou se podia sentar-se à minha mesa pois também estava sozinha. Claro.

Começamos a conversar e ela me disse que estava fazendo hora até que uma loja ali perto abrisse. Curiosamente, era uma loja que eu também queria visitar, pois vendia artesanato lindos produzidos em cooperativas vietnamitas. Ela então me contou que era professora de inglês e atualmente trabalhava em uma escola na Coréia do Sul, contei que eu também era professora de inglês e que dava aula para adultos no Brasil.

Brazil? Wow! I really want to go there! I love helping disadvantaged people! (Brazil? Uau! Eu quero muito ir pra lá! Eu adoro ajudar aos desfavorecidos!)

#comolidar? Não deu pra lidar. Não me contive, simplesmente me levantei da meda e deixei aquela alma bem intencionada falando sozinha.

salar de tara

6. O alemão machista do Atacama

Em um dos passeios pelo Atacama havia um casal de alemães no nosso grupo, o grande problema é que eles não falavam nenhuma outra língua e o guia estava tendo um pouco de dificuldade com eles. Me ofereci pra dar uma ajudinha ao guia, caso ele precisasse, e fiz um pouco a ponte entre eles e o resto do grupo. Tudo estava indo bem até que chegamos para buscar as últimas pessoas do grupo, três meninas que estavam de shorts. Como o lugar aonde iríamos era bastante frio, o guia sugeriu que elas trocassem por uma calça, nisso o alemão fala:

– Mas como assim, fulano? Nós dois somos os dois únicos homens do grupo! Você não pode fazer isso! Agora a gente não pode mais ficar admirando as pernas delas?

#comolidar? Para o bem da saúde mental do resto do grupo, simplesmente não traduzi mais nada.

Na Gringa, Pogramas

Como visitar o Castelo de Alwnick – Parte II

December 12, 2015

Ontem contei a primeira parte da nossa visita ao Castelo de Alnwick e deixei pra hoje a melhor parte; a aula de voo. Vamos lá?

Alnwick Castle

Logo depois que saímos da vila medieval fomos até a entrada do castelo, onde aconteceria o tour pelos porões perdidos e que prometia ser bem aterrorizante. O fato de menores de 13 anos, epiléticos e mulheres grávidas não poderem participar ajudou a criar um clima de medo no pessoal do nosso grupo. Eu, que me assusto com qualquer bobagem com a maior facilidade do mundo, já estava segurando a mão do Josh com uma certa força. Chegou um senhor de terno com a cara mais séria e nos chamou pra descer a escada, assim que todos estavam juntos ele começou a passar as instruções:

“Não é permitido tirar fotos ou filmar, se alguém tiver claustrofobia deve considerar se quer continuar ou não, não é permitido encostar nos moradores do porão.” Eu juro que pensei duas vezes quando ele tocou no assunto da claustrofobia, mas resolvi seguir.

Imagem do Twitter do Castelo de Alwnick

Imagem do Twitter do Castelo de Alwnick

Nosso guia foi nos conduzindo pelas salas, cada uma com seu morador ou moradora que ia nos contando sua história. Entre fantasmas e espíritos ficamos sabendo como cada um dos personagens foi parar no que havia sido a masmorra do castelo de Alnwick. Só fiquei com pena do vampiro quando ele se aproximou de mim dizendo que gostava de calor humano. Se você me der uma Coca-Cola quente pra eu segurar por cinco minutos eu te devolvo a mesma Coca bem geladinha.

Castelo de Alnwick

Saímos de lá e rapidamente fomos para o gramado, onde a aula de voo começaria às 14:30. Eu estava numa ansiedade que nem te conto! O Josh, muito do sem graça, não quis participar mas se prontificou a ficar tirando as fotos enquanto eu aprendia a voar em vassoura. Logo chegou o professor, que parecia ser uma mistura de professor Snape com professora Sprout e era divertidíssimo. Ele alinhou todo mundo, era um monte de gente, e foi colocando as vassouras à frente de cada um. Por fim pegou a dele e começou a aula.

Castelo de Alnwick

A primeira instrução foi de colocar a vassoura no chão, do lado da mão que você usa mais e gritar “up!” bem alto. Se a vassoura não subisse, era só pegá-la do chão e o passo seguinte era subir nela dizendo “mount!”.

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O professor sempre frisava a importância de dizer as palavras mágicas com muita ênfase, bem claramente e bem alto, caso contrário a mágica não aconteceria.

Castelo de Alnwick

O primeiro exercício já montados foi de sair correndo pelo gramado gritando “fly!”de um lado pro outro.

Castelo de Alnwick

Fora do contexto, pareceria o horário do recreio de um hospício mas foi bem engraçado e divertido. Depois de algumas tentativas alguns de nós foram bem sucedidos.

Castelo de Alnwick

O Josh, que por ser inglês pôde ir pra Hogwarts, até se dignou a dar uma canjinha.

Castelo de Alnwick

Depois da aula fomos rapidamente dar uma olhada na parte de dentro do castelo, que é propriedade da mesma família há 700 anos, que está aberta à visitação. Algumas cenas do seriado Downton Abbey foram gravadas na sala de jantar e na biblioteca e eu estava muito curiosa para ver como um castelo que ainda é habitado é decorado por dentro. Meu lado dona de casa babou ao ver o jogo de jantar exposto, era uma peça mais linda que a outra.

Castelo de Alnwick

Exaustos depois de um dia inteiro andando, e até voando!, de um lado pro outro resolvemos voltar pra casa. O ponto de ônibus é bem pertinho do castelo e ficamos felizes ao consultar a tabela e ver que haveria um saindo dali 15 minutos. O que nós não consultamos e não sabíamos é que, por esta ser uma linha diferente da que tínhamos pegado para ir até Alnwick, o caminho seria completamente diferente e demoraria o DOBRO do tempo. O resultado foi que dormi durante praticamente todo o trajeto da volta até Newcastle.

Visitar o Castelo de Alnwick a partir de Newcastle:

Saindo da estação Haymarket, no centro de Newcastle, pegue o ônibus X15 na plataforma “Q”. A viagem vai durar cerca de 1h30min. O X18 também faz o mesmo trajeto, saindo da mesma estação.

O ingresso pode ser comprado pelo próprio site do Castelo, o que te dá um descontinho de 5% (£14 no site contra £14,75 se comprada na bilheteria do castelo na hora de entrar), mas tem que ser com 24h de antecedência. Tickets para visitas no mesmo dia devem ser comprados diretamente na entrada. Pode pagar com cartão.

Apesar de meio caro (£14 são quase R$90…) o ingresso vale por um ano a partir da data de validação e tudo o que há de atrações lá dentro, e são muitas, está incluso no preço.

Na Gringa, Pogramas

Como visitar o castelo de Alnwick – Parte I

December 11, 2015

Já contei pra vocês que eu virei uma pottermaníaca praticamente de carteirinha, né? Do tipo que encomendou o livro 6 pra ele chegar em casa no dia do lançamento mundial. Pois é, esse tipo de fã. Mas sobre as locações dos filmes eu sabia bem pouco e nem me importava muito com elas, já que a Inglaterra nunca foi um dos lugares que eu mais quis conhecer na vida. Aí eu comecei a namorar o Josh… E bom, aí a Inglaterra entrou nos planos.

Quando decidi que vinha pra cá minha mãe insistiu para que eu visitasse uma cidadezinha chamada Alnwick, ela esteve lá no ano passado e disse que é a coisa mais linda do mundo. Vi que ficava perto de Newcastle e então fiquei sabendo que algumas cenas do Harry Potter e a Pedra Filosofal foram filmadas lá. Foi então que comecei a pensar em como visitar o Castelo de Alnwick.

Da plataforma Q saem os ônibus de Newcastle a Alnwick

Da plataforma Q saem os ônibus de Newcastle a Alnwick

Josh foi escalado para ir comigo e programamos o passeio para um dia em que o tempo estivesse bom , o que não é tão raro assim durante a estação que os ingleses insistem em chamar de verão. Compramos os ingressos pela internet e no dia seguinte pegamos o ônibus em direção a Alwnick na estação Haymarket, no centro de Newcastle, umas 10:30. A viagem entre as duas cidades dura cerca de uma hora e meia, e do ponto de ônibus (Alnwick Station) até o castelo não são nem dez minutos de caminhada. Validamos nossos ingressos na bilheteria e aproveitamos para fazer o passe anual, que está incluso no valor do ingresso por um dia. É só pedir para o caixa fazer o seu registro, tirar uma foto para o cadastro e pronto!, você tem um ano para voltar quantas vezes quiser.

A entrada do castelo

A entrada do castelo

Logo na entrada fui procurar no quadro de avisos o local e o horário da atividade que eu mais queria fazer: a aula de vôo em vassouras! Entre as cenas do Harry Potter e a Pedra Filosofal que foram filmadas no castelo estão as da primeira aula de vôo – quando o Harry e o Malfoy competem para ver quem vai pegar o “lembrol” do Neville e o Harry se torna o novo apanhador da Grifinória – além de algumas cenas externas, deles andando pelos jardins da escola. A próxima aula seria às 14:30, então fomos pegar a senha e ver o que mais havia para fazer enquanto esperávamos.

Alnwick castle

Começamos o tour pela parte medieval do castelo “The dragon’s quest”. É interessante ter uma idéia de como era a vida ali há tantos anos. Para entrarmos bem no clima há um monte de fantasias à disposição e dois funcionários que te ajudam a escolher e a vestir as roupas, nos perguntaram se queríamos duas de cavaleiro, duas de princesa ou uma de cada. Acabamos indo na última opção, Josh se vestiu de cavaleiro e eu de princesa, cada um ganhou uma espada  de espuma e fomos andar pela vila.

Escolhendo nossas ervas

Escolhendo nossas ervas

Nossa primeira parada foi para conversar com o boticário George. Ele nos mostrou um pouco das ervas secas que tinha à sua disposição, nos explicou o uso de cada uma delas e por fim nos perguntou se gostaríamos de fazer sabão medieval. Claro que sim! Cada um escolheu duas delas (eu combinei lavanda com camomila) e teve que moê-las num pilão, quase reduzindo-as a pó. Depois ele nos mostrou uma tigela bem grande, cheia de flocos de aveia e colocou um punhado nas nossas mãos, pedindo para que esfregássemos vigorosamente. Olha, poucas vezes senti minhas mãos tão macias, não fazia a menor idéia de que aveia fosse tão hidratante assim. Uma bela colherada de aveia foi adicionada às ervas moídas e também uma generosa dose de uma pasta branca que seria o equivalente à gordura animal usada na produção de sabão, é ela quem dá liga aos ingredientes e funciona como o agente de limpeza dos sabonetes. Quando todos os ingredientes já estavam bem misturados, George nos pediu para moldarmos duas bolinhas, do tamanho de bolas de golfe, com as mãos e que as deixássemos descansar por uns cinco dias, então elas estariam duras o suficiente para serem usadas como sabonete. *Eu já usei e me decepcionei um pouco, talvez tenham ficado duras demais.

Assim ficam os sabonetes depois de prontos

Assim ficam os sabonetes depois de prontos

A parada seguinte foi a cruzada do dragão propriamente dita, uma espécie de labirinto com desafios e charadas que se dizia muito assustadora. Logo na entrada você pega uma folha para ir anotando as respostas das perguntas e poder conferir na saída, a gente estava achando tudo muito banal, feito para crianças e meio besta, mas bastante divertido mesmo assim. Foi então que chegamos ao final da cruzada, onde está o labirinto de espelhos e de onde só conseguimos sair depois de muita bateção de cabeça e um leve pânico por causa do som de gargalhadas ao fundo.

Foram muitas batidas de cabeça nos espelhos...

Foram muitas batidas de cabeça nos espelhos…

Além das gargalhadas ao fundo, as cores do ambiente também vão mudando.

Além das gargalhadas ao fundo, as cores do ambiente também vão mudando.

Antes de sair da ala medieval é preciso devolver a fantasia, o que eu achei uma pena, pois teria adorado passar o dia vestida de princesa andando pelo castelo de espada em punho, mesmo a espada em questão sendo de espuma. Mas tudo bem, vestidos de Josh e Ângela versão 2015 fomos para os porões esquecidos do castelo, onde tínhamos um tour agendado para as 13:45.

Castelo de Alnwick

 *Fique ligado que amanhã tem a continuação do passeio e mais informações sobre como visitar o Castelo de Alnwick

Na Gringa, Sobre a vida

Como chegar em Tupiza – sem perder nada no meio do caminho

December 1, 2015

O passeio mais esperado da viagem que fiz para a Bolívia no começo de novembro era o do salar de Uyuni e para chegarmos lá, precisávamos antes chegar em Tupiza. Minha companheira de aventuras, como quase sempre, não era um Toddynho e sim a amiga Yara. O plano era dar início ao tour de cinco dias no 03/11 e para isso deveríamos pegar o ônibus que nos levaria ao sul do país no dia 02/11, pensamos em passar o dia em trânsito e a noite em Tupiza. Fácil, né não?

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Achei que o trâmite todo de como chegar em Tupiza seria parecido com o brasileiro, chegar na rodoviária, comprar o bilhete e embarcar. Na verdade, como tinha sido possível reservar um outro tour através do hotel, perguntei à recepção se seria possível fazer a reserva das passagens com eles também. Me informaram que eu deveria ir até o terminal e comprá-las lá. Mais uma vez achei que não seria problema algum, tinha um fim de tarde e praticamente um dia inteiro de antecedência para resolver o assunto. Ledo engano.

Primeiro porque a caminhadinha até o terminal já foi osso, muitas ladeiras numa altitude de 4000m (onde quase não há oxigênio) é pra acabar com qualquer um. Parecia que a cada passo que dávamos a rodoviária ficava dois mais distante. Mas chegamos e fomos procurar quais empresas fariam o trajeto, há mais de uma, quanto custaria e quais os horários de saída. No primeiro guichê onde perguntamos, nos informaram que não haveria ônibus para o dia seguinte, apenas naquela mesma noite ou só dois dias depois. Fomos a mais duas companhias e ouvimos sempre a mesma resposta, não haveria ônibus na segunda-feira pois era feriado. Boas paulistas que somos, nos indignamos um pouco com o fato de que um mísero feriadinho ser suficiente para interromper o transporte rodoviário do país (“Esse povo não sabe ganhar dinheiro!”) e depois tivemos um leve ataque de pânico quando pensamos que teríamos que sair do hotel o mais rápido possível e passar um dia a mais em Tupiza; o jeito seria pegar o busão naquela noite mesmo e isso significaria 14 horas de viagem depois de um dia passeando por Tiwanaku sem intervalo para banho entre uma coisa e outra.

Resolvemos voltar ao hotel e entrar em contato com a operadora de Tupiza, perguntaríamos se seria possível adiar a saída para o dia 05/11, se não fosse amargaríamos o busão naquela noite mesmo. Felizmente eles foram super flexíveis e ficou acertado que sairíamos de La Paz na terça-feira. Voltamos à rodoviária e compramos nossas passagens com a Trans del Sur, que sairia às 18h. Voltamos ao hotel e pedimos para ficarmos mais uma noite, mas nada feito, eles estavam lotados e nós teríamos que sair na manhã seguinte – curiosamente a gente não se lembrava de ter escolhido o passeio “com emoção” em momento algum, talvez alguém tenha escolhido por nós. De qualquer maneira, esse foi um dos menores empecilhos da viagem; uma rápida olhada no guia foi o suficiente para encontrarmos nosso novo hotel.

O último dia em La Paz fez jus ao nome da cidade e transcorreu na maior tranquilidade, passeamos bastante e às 17:30 estávamos bonitinhas na rodoviária conforme a orientação da moça que havia nos vendido a passagem. Ela logo nos levou à plataforma de onde sairia nosso ônibus e lá ficamos esperando e brincando de “Qual o busão?”

Uma bela pintura na rodoviária de La Paz

Uma bela pintura na rodoviária de La Paz

Quem já pegou ônibus na Bolívia sabe bem do que estou falando. Ao contrário do Brasil, onde hoje em dia a grande maioria dos ônibus é igualmente boa e confortável, na Bolívia há ônibus de todos os tipos: dos bem bonitos, modernos e que parecem muito confortáveis, até os que aparentam ser bem velhos, desconfortáveis e com muito potencial para causar aquele perrengue básico na sua viagem. Cada vez que víamos um entrando no terminal, torcíamos para ser ou não o nosso. O não geralmente vinha acompanhado daquelas fantásticas pinturas nas laterais dos ônibus: onças, Cristo Redentor, paisagens e até mariachis – tem pra todos os gostos.

Uma hora depois, quando a gente já tinha cansado de brincar de “Qual o busão?”, o nosso finalmente chegou. Abriram o porta-malas e começaram a carregar um monte de sacos de estopa lá pra dentro, então colocaram as malas de todos os passageiros. Procuramos nossos assentos, nos acomodamos, achando que a sorte estava do nosso lado – as poltronas reclinavam bastante e havia até um bom apoio para os pés e as pernas. Dormimos um pouquinho até a primeira parada, cerca de duas horas depois de sairmos de La Paz, e lá descemos para procurar um banheiro. Na hora em que íamos juntas me deu um estalo e falei pra Yara:

– Vai você e eu vou ficar aqui de olho nas malas e no busão.

Eu já tinha ouvido histórias de malas roubadas, tanto de amigos viajantes quanto no próprio Lonely Planet e achei melhor não dar chance ao azar. Uns cinco minutos depois da Yara ter saído o ônibus começou a dar ré e a lentamente sair do terminal. Me agarrei à porta, que ainda estava aberta e pedi ao motorista que esperasse mais cinco minutinhos, pois minha amiga ainda não havia voltado. Com um mau humor e uma má vontade características de quem toma um copo de vinagre todo dia ao acordar, o motorista que tinha atrasado UMA HORA, me diz:

– Isso aqui não é um ônibus de excursão pra eu ficar esperando passageiro! É um ônibus de passageiros, eu tenho horário para cumprir, passageiros para transportar!

É claro que eu não disse a ele exatamente o que eu gostaria de ter tido, simplesmente falei:

– Justamente, o senhor tem passageiros para transportar e por isso mesmo não pode sair sem uma delas!

Mesmo assim ele continuou a dar ré e eu, pendurada na porta, comecei a gritar que ele não podia sair antes da Yara voltar. Nisso ele foi ficando cada vez mais nervoso porque os ônibus que chegaram depois do nosso dependiam dele sair para liberar a vaga e eles poderem estacionar. Fomos dando ré, eu pendurada na porta e ele querendo fechá-la, um brigando com o outro, ele me dizendo que eu deveria ir buscar minha amiga e voltar ao ônibus e eu dizendo que não ia, porque se eu saísse ele iria embora sem mim. Quando eu já estava começando a pensar se seria pior deixar as malas seguirem e ficar com a Yara ou se seria pior deixar a Yara e ir com as malas, ele se compadeceu e falou:

– Olha, eu vou estacionar ali em frente à saída e você vai buscar a sua amiga.

Fiz ele prometer que não iria e saí correndo em busca da Yara, que estava com uma carinha de cachorro perdido, sozinha na plataforma. Berrei de onde eu estava mesmo que era pra ela correr, que o ônibus estava quase saindo sem a gente. Ela correu e entramos arfando de volta no busão, a 4000m de altitude não há ar. Mesmo. Entramos no ônibus e ainda tivemos que agradecer ao motorista por ele não ter nos deixado numa rodoviária no interior da Bolívia no meio da noite. Fomos até nossos lugares e nos deparamos com um casal ocupando nossos assentos, eu devo ter feito uma expressão de desolamento tão tão grande que a mulher nem me esperou falar nada, simplesmente nos perguntou se aqueles eram nossos lugares e rapidamente saiu quando disse que sim. No que nos acomodamos, o casal que estava sentado nos bancos ao lado dos nossos entra correndo no ônibus, outros dois passageiros que teriam sido largados lá se eu não tivesse feito o motorista esperar pela Yara.

Depois disso a viagem transcorreu tranquilamente, com apenas uma parada no banheiro mais sujo da Bolívia e um frio de bater o queixo durante todo o trajeto.

Tupiza

Quando o dia começou a raiar fizemos a última parada antes de chegarmos a Tupiza e mais uma vez o motorista quase esquece um passageiro. Umas duas horas depois o ônibus pára e percebemos uma movimentação dos passageiros, gente subindo e descendo, pegando as malas e quase todos conversando. Então um deles olha pra mim e pergunta se vamos a Villazón. Eu não fazia idéia de onde era Villazón e disse que não, que íamos a Tupiza.

– Mas nós já estamos em Tupiza. Há um bloqueio na estrada e os ônibus não podem passar, vocês vão ter que ir a pé até o centro.

Tupiza

Não teve outro jeito. Pegamos as malas e perguntamos a alguém quanto tempo demoraria até chegarmos ao centro da cidade. Cerca de 30 minutos andando. Começamos nossa longa caminhada até o hotel, que durou um pouco mais de meia hora, e fomos contornando muitos carros, caminhões e motos que travavam as ruas da cidade. No fim deu tudo certo!

Tupiza

Lições aprendidas:

Não é fácil chegar em Tupiza;

O busão raramente sai no horário;

Certifique-se com o motorista da duração das paradas, na dúvida deixe uma amiga plantada na porta do busão e disposta a brigar com o motorista por sua causa;

Leve um casaco bem quente, se possível um poncho, se a viagem for noturna;

Dê preferência às malas que podem ser carregadas nos ombros ou mochilas, nunca se sabe quando será necessário ir andando da estrada ao seu hotel;

Bom humor, sempre.

Na Gringa, Pogramas

Loja na Plataforma 9 3/4; Inglaterra praticamente de graça!

October 19, 2015

Eu venho advogando a causa da Inglaterra a baixo custo há algum tempo, mas o texto de hoje vai um pouco além e te mostra um programa que é praticamente de graça. Só não chega a 100% porque de graça nessa vida, só amor de mãe. Uma visita à loja da plataforma 9 3/4 é divertidíssima e baratíssima, vem comigo!

Eu me lembro de quando o primeiro livro da série Harry Potter chegou ao Brasil, em 2000, e as livrarias começaram a fazer um certo auê em torno do fenômeno de vendas, colocando os pobre volumes dentro de um caldeirão feito de espuma cinza cheio de celofane vermelho dentro fazendo de fogo e uns cabos de vassoura esperados. Uma coisa de um mal gosto que nem sei, espero que esta tenha sido apenas a vitrine da livraria do Shopping Galleria de Campinas. Do alto dos meus 14 anos olhei praquele cenário que mais parecia decoração de buffet infantil e torci o nariz pro “livro de criança”, acrescente-se a isso o fator “todo mundo está lendo!” e temos aí o meu desprezo completo e absoluto.

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Um ano depois saiu o filme e fui ao cinema vê-lo com a minha mãe, muitos dos meus amigos estavam comentando e minha curiosidade foi instigada. Achei a história legal, mas não o suficiente pra me fazer ler os livros. Em 2002 assisti ao segundo filme e segui minha vida sem a menor vontade de saber o que aconteceria com a do Harry.

No fim de 2003  o quinto livro saiu no Brasil e todo mundo começou a falar que este sim seria o melhor livro, o que ia explicar a razão de tudo, esclarecer as razões do tal do Voldemort… e então me deu um comichão de querer saber também! Mas resolvi que eu tinha que ler tudo desde o começo, desde o primeiro, e fui lendo um em seguida do outro entre as duas semanas de provas da segunda fase da FUVEST e da UNICAMP. Foi, inclusive, uma ótima maneira de me distrair e aliviar a tensão do vestibular. Na época fiquei “Pottermaníaca” daquelas de ler fanfics e acalentar uma paixonite pelo Snape. E resolvi que um dia visitaria a estação King’s Cross pra tentar chegar na Plataforma 9 3/4, afinal de contas a gente nunca sabe se vai conseguir se não tentar.

Estação King's Cross

Estação King’s Cross

No ano passado minha mãe esteve em Londres e eu dei a ela a missão de ir procurar a plataforma e me trazer uma foto. Ela voltou com a informação de que havia uma loja na plataforma 9 3/4! Então este ano fiquei feliz da vida ao saber que o trem que me levaria de Newcastle a Londres chegaria na King’s Cross, já estava certa de que tirar minha foto empurrando o carrinho seria a primeira coisa que eu faria quando chegasse na capital! Nós chegamos à uma da manhã, mortos de cansaço, com frio e sem a menor vontade de procurar qualquer coisa que não fosse um táxi. A plataforma ficaria pra outro dia…

Num dos dias em que os meninos não quiseram passear comigo eu aproveitei pra ir até lá de tarde e me deparei com a maior fila! Na minha santa inocência, até imaginei que teria de esperar um pouco pra conseguir minha foto, mas realmente não esperava o que eu encontrei: uma fila super organizada, com cordinhas como as de cinema, indicando o sentido, um moço com quatro opções de cachecóis na mão e um fotógrafo profissional para tirar o seu retrato usando o cachecol da sua casa. A foto é então diretamente enviada para um monitor dentro da loja onde, é claro, você pode comprar uma reprodução. A fila me fez desistir, ela e o fato de que dentro de alguns dias eu necessariamente teria que voltar lá. Fui-me embora.

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Nosso trem de volta para Newcastle sairia de Londres às 22:00 e o Josh sugeriu que fôssemos mais cedo para eu tirar minha foto. A gente achou que nesse horário já não teria mais ninguém por ali, afinal já era mais do que hora de criança estar na cama. Ledo engano. Às 21:00 havia bem umas 10 pessoas fazendo fila e a loja ainda estava aberta! Só pra vocês terem uma idéia de como isso é surpreendente, às 18:00 o comércio TODO de Newcastle já está fechado. Londres, que é infinitamente mais cosmopolita e turística, fecha as portas às 20:00. Dá pra imaginar a minha cara de espanto quando eu vi a loja na plataforma 9 3/4 funcionando a todo vapor.

Esperei bonitinha pela minha vez de pedir o cachecol da Corvinal (Josh disse que eu teria sido escolhida pra Corvinal se eu tivesse ido pra Hogwarts). A fotógrafa me pediu duas poses, uma com a perninha levantada no estilo “estou feliz da vida porque estou indo para Hogwarts” e outra pulando como se estivesse mesmo atravessando a parede. A mulher que estava na minha frente se empolgou tanto e empurrou o carrinho com tanta força que eu achei que ela talvez fosse mesmo atravessar a barreira. Depois disso eu fui devidamente encaminhada à lojinha, onde comprei duas fotos.

Platform 9 3/4

Voltando de Bath na última quinta-feira tive que fazer conexão na King’s Cross e aproveitei pra dar mais uma olhadinha e garantir mais uma foto na Plataforma 9 3/4, incrível como estava mais vazia do que da outra vez! Mesmo em um horário mais cedo. Conversei um pouquinho com o moço que entrega os cachecóis e ele me disse que durante as férias de verão (entre os meses de julho e agosto) eles chegam a tirar cerca de 1000 (MIL!!!) fotos por dia, das quais 300 a 400 são vendidas. A partir de setembro o movimento cai um pouco, mas sempre tem gente visitando.

A loja é pequena, mas bem bacana e está sendo expandida. Tem todo tipo de produto relacionado à série Harry Potter: casacos dos times de quadribol das diferentes casas, cachecóis, chaveiros mil, canetas, canecas, camisetas, quadros, passagens para o Hogwarts Express, cartões postais, varinhas de praticamente todos os personagens e até mesmo uma réplica do diadema da Rowena Ravenclaw! Não tem nada barato, os casacos custam cerca de £50,00, as canecas £8,00 e o diadema, se não me engano, algo como £150,00! Mas como este é um post muquirana, você pode simplesmente entrar, olhar tudo e sair de lá sem gastar absolutamente nada.

platform 9 3/4

Serviço:

A loja fica na estação King’s Cross, ao lado do carrinho que tem as malas e uma gaiola com uma pobre Edwiges empalhada. O jeito mais fácil de chegar até lá é descendo na estação de metrô St. Pancras’/King’s Cross e dentro da estação é só perguntar para qualquer pessoa onde está o carrinho, ou procurar por uma fila enorme.

Cada foto avulsa custa £9,00, o preço cai pra £15,50 por duas e £20,00 para três. Você não precisa comprar a foto, pode simplesmente pedir para um amigo, ou transeunte, fazer o registro pra você. De qualquer maneira, só de estar esperando na fila já tem a direção artística e o cachecol, o que eu achei muito bacana.

A loja na plataforma 9 3/4 fica aberta até às 22:00 e o fotógrafo fica por lá até umas 21:30.

O site deles é esse aqui.