Na Gringa, Pogramas

Shakespeare’s Globe; uma viagem no tempo através de uma peça.

September 24, 2015

Josh e eu passamos a última semana de agosto em Londres e uma das coisas mais legais que fizemos foi assistir a uma peça no Shakespeare’s Globe, uma réplica do teatro no qual as peças originais eram montadas. A idéia veio quando me lembrei de um post da Mari, que escreve o Pequeno Guia Prático Para Mães Sem Prática (pois é, houve uma época em que li um ou outro blog de mães), em que ela contava sobre a experiência de ter assistido “Romeu e Julieta” no Globe. Achei que seria um bom programa pra fazermos durante nossos dias na capital inglesa e fiquei feliz quando descobri que os preços dos ingressos eram bem acessíveis. Em cartaz estavam “As you like it” e “Richard II”, sendo a primeira uma comédia e a segunda uma tragédia. Como uma conhecedora bastante rasa do bardo – posso até citar o nome de algumas das peças que ele escreveu, mas dizer do que se tratam, só uma ou duas e olhe lá, sendo que uma delas seria a famosíssima “Romeu e Julieta” – optei pela comédia por achar que seria uma história mais fácil de seguir  e cliquei para ver a disponibilidade de assentos e horários, TUDO esgotado. Fuén fuén fuén, teríamos que encarar a tragédia se quiséssemos ir ao Shakespeare’s Globe.

Ele por fora.

Ele por fora.

Por diversos motivos estava com medo de não entender a peça; havia a questão das falas serem em inglês antigo, o sotaque britânico que eu às vezes tenho um pouco de dificuldade para entender somado à minha relativa surdez, o contexto histórico que eu desconhecia completamente e o fato de que tragédias costumam ter um enredo mais complicado do que comédias, o que tornaria tudo mais difícil quando somado aos problemas anteriores. Ou seja, estava com medo de ficar a ver navios tendo pagado por isso em libras esterlinas. Então fui procurar saber mais sobre o assunto, pois sei que houve alguns Reis Ricardos na Inglaterra – aprendi sobre pelo menos um deles nas 1000 vezes que assisti ao Robin Hood da Disney quando era criança – mas sobre esse, que não era o “Coração de Leão”, eu não sabia nada.  Descobri então que o drama não teve boa aceitação porque o rei abdica do trono e a nobreza da época não viu isso com bons olhos. Além da busca sobre o assunto na interwebz, comprei o programa na entrada do Shakespeare’s Globe e li o resuminho antes do início do espetáculo – e recorri a ele várias vezes durante também. Juntando a tudo isso à encenação e ao cenário, deu pra entender praticamente todas as falas, bem como a história inteira.

O único mico do dia foi ter comprado o ingresso para ficar em pé na platéia… Conversando com o amigo que nos hospedaria em Londres (que também se chama Josh e que de agora em diante passará a ser o other Josh, por motivos de não fazermos confusão com boyfriend Josh), quis saber quais seriam os melhores lugares no Globe. Eu nunca entendo bem aqueles mapinhas de assentos que os teatros fornecem, sempre fico confusa e com medo de me sentar na lateral e não conseguir ver nada do palco, ou ir muito pro fundo e ter apenas a visão das cabeças de quem está sentado à minha frente. Então other Josh disse:

– No Globe não faz sentido ficar sentado, os bancos são duros, desconfortáveis e, na época do Shakespeare todo mundo assistia às peças em pé mesmo.

Na hora eu não parei pra pensar que na época do Shakespeare as pessoas também não tinham várias coisas que nós temos hoje em dia (guardar comida na geladeira e água quente encanada são dois bons exemplos de como a humanidade evoluiu de lá pra cá) e só consegui focar em como sairia bem mais barato ficar em pé do que sentada. Uma diferença de £10 nunca passa em branco, não é mesmo? Gente, sigamos o exemplo da geladeira, do microondas, do zíper e da água quente encanada e deixemos certos hábitos de 1500 onde eles deveriam ficar, em 1500 mesmo. Não deixem o pão-durismo passar por cima de certas coisas como eu deixei e me arrependi amargamente. Eu detesto ficar muito tempo em pé, sou do tipo de gente que quer que o mundo acabe em barranco pra morrer encostada e não tenho vergonha de admitir, fui burra quando não levei isso em consideração na hora de botar a mão no bolso.

A visão de onde eu queria estar, a partir de onde eu estava.

A visão de onde eu queria estar, a partir de onde eu estava.

O primeiro ato é mais longo do que o segundo, o que é providencial, pois dá pra dar uma sentadinha ali no chão mesmo durante o intervalo. Aconteceu que em um dado momento do segundo ato eu não aguentava mais de dor nos pés e nas costas e me sentei novamente, então veio uma funcionária do teatro me perguntar se eu estava passando mal, quando eu disse que não ela me falou: “Então eu vou ter que pedir pra você ficar de pé”. Rangendo dentes e amaldiçoando as futuras gerações da mulher me levantei e me pus a pensar que isso não fazia sentido algum, sentada eu não estaria atrapalhando a visão de ninguém. Mas vai saber, né? Vai ver faz parte da atmosfera que eles querem manter. Eu sei que prefiro me sentar da próxima vez.

Serviço:

Você pode comprar os ingressos pelo site do Shakespeare’s Globe e recebê-los em casa ou retirá-los na bilheteria, como eu fiz. Chegando lá é só dar o seu nome e eles te entregam.

A maioria dos espetáculos acontece de tarde, então se for um dia ensolarado não se esqueça de levar um boné e óculos escuros. É possível que o sol fique bem na sua cara, especialmente se você estiver sentado bem no centro.

É bem fácil chegar ao teatro a partir das estações de metrô: Mansion House, Temple, Blackfriars, Southwark e St. Paul’s. A pé, você não vai andar mais do que 15 minutos a partir de qualquer uma delas e há bastantes indicações tanto nas estações quanto nas ruas.

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