Na Gringa, Sobre a vida

Loucademia de puliça ou: sobre como eu fui parar numa delegacia tailandesa

February 12, 2015

Nem bem eu escrevi um post sobre a idéia fraca que é usar drogas na Ásia, fui parar numa delegacia tailandesa. Antes que minha mãe tenha um ataque do coração, já adianto que não teve a ver com qualquer problema relacionado a tóxico (leia-se tóchico) ou algo grave. E agora vamos começar do começo.

Há dez dias meu ar-condicionado quebrou e desde então a dona do quarto me diz que “em dois dias” ele será consertado. Sabe placa de bar (ou de padaria, ou de mercadinho de bairro) que diz: “Fiado só amanhã”? É exatamente esta a situação que estou vivendo. Não que ela esteja negligenciando a situação completamente, já vieram vários técnicos olhar o aparelho, tiraram foto, encomendaram a peça em Krabi, em Bangkok, desmontaram o bicho inteirinho (o que fez o meu lado dona-de-casa feliz, pois me permitiu limpá-lo bem por dentro, inclusive o filtro) e nada de arrumarem. Ela fez, pelo menos, a gentileza de nos arrumar mais um ventilador – e me surgiu a questão de quantos ventiladores seriam necessários, se é que isso é possível, para que fizessem o mesmo efeito de um ar-condicionado?

Chegamos a ter três técnicos tentando consertar o ar ao mesmo tempo e nada...

Chegamos a ter três técnicos tentando consertar o ar ao mesmo tempo e nada…

Enfim, como o plano para o dia era passá-lo inteirinho fora de casa em um iate de balada aqui em Phi Phi, achei que não era o caso de levar meu telefone. Fiquei com medo de caísse água e estragasse e resolvi deixá-lo em casa, bem em cima da cabeceira da cama. Mas na hora de sair me deu um pressentimento meio ruim, sabe intuição feminina? A própria!

A dona do quarto me disse que o técnico viria novamente esta tarde e eu fiquei meio encafifada na hora em que pensei no pobre telefone abandonado. Como ele já tinha vindo aqui outra vez em um momento em que eu não estava e nós não havíamos dado por falta de nada, acreditei que era só muita desconfiança desnecessária da minha parte e não dei ouvidos à minha intuição.

A primeira coisa que eu fiz quando cheguei em casa foi olhar pra cima da cabeceira da cama e adivinhem o que NÃO estava lá? O meu celular! Olhei de baixo da cama, em cima da penteadeira, abri todas as minhas bolsas e mochilas e as do Josh também, nada do telefone ali dentro. Então desci rapidinho para falar com a responsável – nós moramos em cima de uma loja de roupas e a dona do quarto é também a dona da loja, a Nah. Contei, aos trancos e barrancos, o que tinha acontecido e ela ligou para o marido, já que ele tinha ficado responsável pelo conserto do ar. Ele me pediu para procurar novamente e que logo viria para cá. Enquanto isso usamos o telefone da Nah para chamar o meu e nada, só chamava e ninguém atendia. Fizemos uma nova busca quando ele chegou e nada do celular.

delegacia koh phi phi

Por fim nos lembramos da tal da ferramenta “Buscar o meu iPhone” e a primeira tentativa deu errado; o telefone aparecia desligado. Fiquei um pouco mais pelo quarto dando uma última procurada e nisso a Nah aparece dizendo que o marido tinha conseguido encontrar meu telefone no aplicativo. Oba! Saí correndo atrás dele e, juntos, fomos seguindo o GPS até onde o pontinho do meu celular estava aparecendo. No meio do caminho nós fomos passando por diversos bares e ele foi juntando um grupo de amigos tailandeses: “Quando a gente encontrar quem está com o seu telefone vamos dar uma coça nele!” Aproveitaram a muvuca para chamarem a polícia também. Nisso, o pontinho ia ficando cada vez mais perto e ao fundo começou a tocar “Gangnam style” – nós estávamos bem próximos à praia das baladas. Eu já estava fazendo todo o texto da busca do telefone pro blog na minha cabeça e pensar que nós chegaríamos, eu e mais 4 tailandeses, pra enfrentar o ladrão de iPhone e ao som de Psy era a cereja do bolo. Não seria possível escrever um texto mais cool do que esse em toda a blogosfera de viagem. Imagina só eu e mais quatro tailandeses andando em formação de Power Rangers em direção ao ladrão de iPhone e recuperando o bichinho com meia dúzia de golpe de Muay Thai! É claro que não rolou, né?

party beach

Era daqui que vinha o Gangnam Style em alto e bom som!

Quando chegamos no lugar onde os pontinhos se encontraram a polícia também chegou e já nem dava mais pra ouvir “Gangnam style”. Ficamos todos ali “com cara de ué”, como diz a minha avó, em frente às casinhas e pensando em como faríamos a abordagem. A polícia não pode simplesmente bater na porta de alguém e dizer: “Viu, tô vendo aqui que o telefone dela está na sua casa”. O jeito foi irmos para a delegacia, que é praticamente pegada à minha casa, e pensarmos em um novo plano. Ao chegarmos lá, o policial pediu para que eu colocasse os meus dados no site da Apple outra vez e, milagrosamente, o meu celular aparecia nas imediações da delegacia. Estranho, muito estranho. Então o marido da Nat, que estava me ajudando com a busca, disse que iria até o meu quarto dar outra procurada e me disse pra ficar na delegacia. Estranho, muito estranho. Achei que isso não fazia sentido nenhum e fui atrás dele, não queria mais gente mexendo nas minhas coisas hoje. Quando cheguei em casa procurei mais um pouquinho perto da cama e vi que ele estava abaixado perto da gaveta onde guardo minhas camisetas, nisso ele pegou o celular dele e me disse que ia tentar chamar o meu número mais uma vez – nós já havíamos feito isso à exaustão e sempre sem sucesso. Não é que dessa vez ele chama a minha atenção e diz que está ouvindo um telefone tocar? E adivinhem de onde vinha o som? Da minha gaveta de camisetas! Estranho, muito estranho.

É claro que eu fiquei felicíssima de ter recuperado meu telefone, não queria ter que lidar com a dor-de-cabeça que seria tentar recuperar todas as informações e nem teria dinheiro suficiente para comprar um iPhone novo, já que não sei se o seguro cobre roubo internacional. Enfim, o que acontece é que eu estava prontinha pra sair acusando o proprietário do quarto de ter pego meu telefone e “plantado” ele novamente quando percebeu que eu não ia ficar quieta e aceitar tranquilamente que o celular havia desaparecido misteriosamente. Só que eu resolvi ficar quieta e guardar a acusação pra mim mesma e isso foi a melhor coisa que eu fiz.

Naquela noite o Josh tinha ido dormir na casa do irmão dele para continuar as comemorações da despedida de solteiro, que já havia começado no iate da balada, e nós só fomos nos encontrar novamente na noite do dia seguinte. Quando ele chegou em casa, comecei a contar tudo o que tinha acontecido e por fim acabei falando que achava muito estranho o celular ter reaparecido milagrosamente quando o cara estava bem próximo da gaveta sendo que a gente tinha tentado ligar várias vezes e nunca tinha escutado o toque. Então o Josh olha pra mim e fala:

– Mas, Ângela, fui eu que coloquei o telefone na gaveta! Justamente porque o técnico do ar vinha e eu fiquei com medo que ele fosse roubar o seu celular!

– Ah, então a gente tem que ir explicar isso pros proprietários do quarto! Eles devem estar achando que eu sou completamente maluca!!!

E foi assim que terminou a minha anedota da visita à delegacia tailandesa, graças a D’us com final feliz e só a minha fama de maluca espalhada pela vizinhança. Mas quem se importa com isso quando percebe que não apenas é possível confiar na honestidade das pessoas, como também contar com a boa vontade dos tailandeses em ajudar a farang atrapalhada? Essa é apenas uma das razões pelas quais eu gosto tanto da Tailândia.

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3 Comments

  • Reply Deia Hotz February 12, 2015 at 3:46 pm

    HAHAHAHAHAHAHA Você é muito figura. 😀

  • Reply Rosana February 12, 2015 at 4:11 pm

    KKKKK só vc mesmo Ângela!

  • Reply loveandroad February 14, 2015 at 7:50 am

    Ângela… que tal começar a escrever um roteiro de filme??!!
    Consegui imaginar vc e os Thais fazendo toda aquela cena de ação ao som de Psy, e no fundo uns ladyboys dançando com fogo…hahah… Pefeito!!! Brincadeiras de lado… Que bom que você recuperou seu telefone e que a situação foi esclarecida. Melhor passar por maluca do que não poder confiar nas pessoas ao seu redor. Por incrível que pareça compartilho a mesma sensação que você tem, até hoje os tailandeses só me deram demostração de respeito e honestidade.
    PS: adorei ter te encontrado em PhiPhi, espero que seja apenas o primeiro de muitos encontros.
    Bjs
    Nat 🙂

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